"Para sua segurança esta mensagem está sendo gravada.
Tecle 2 para ouvir novamente a mensagem.
3 para o número do protocolo.
4 para falar com um dos nossos atendentes.
5 para voltar ao menu principal.
Agradecemos à sua..."
Merda!
00:00 A.M.
O advogado está sentado no escuro. Uma cozinha minúscula no centro da cidade. O último gole de whisky no fundo da garrafa.
Sozinho no escuro, com as baratas roçando seus pés descalços sobre cascas de pão velho. O eterno clichê da torneira estalando as gotas no alumínio da pia. E meses de gordura acumulada sobre o fogão.
A luz que atravessa o vitrô reflete nas lentes dos óculos. Ele abre a geladeira outra vez; o recado que tinha deixado para si mesmo ainda está lá:
"Vá ao supermercado."
Merda. As sirenes que passam berrando na rua e mudam de tom e velocidade, distorcidas pelo deslocamento de ar. Os cachorros vagabundos uivando para algum mendigo ou assombração. Depois disso o silêncio.
Não silêncio de verdade, porra. Sempre vaza algum programa de t.v. ou uma briga. Nunca alguém cantando. Ou trepando.
01:00 A.M.
Ele vai ao banheiro e encara seus próprios olhos vidrados no espelho. Enfia os pulsos debaixo da água corrente. Esfrega a água gelada na cara e na nuca. Olha outra vez os olhos secos à sua frente. E desiste.
Então ele tenta outra vez o telefone. A mesma mensagem gravada. Ele já decorou todas. Da operadora de cartão de crédito, da operadora de telefonia, da central de atendimento do banco, do escritório do patrão, da casa da sua mulher.
<
Os atendentes são adestrados para agir como secretárias eletrônicas. O principal requisito para você arrumar um emprego desses é: Não Pensar.
02:00 A.M.
Então ele vira na boca a jarra com café frio e amargo. Tinha esquecido que era de anteontem. Ele quer lavar aquele gosto escroto que ficou na língua mas está com pena de engolir o resto de whisky no fundo da garrafa. Ainda deve ser 1h da manhã e a insônia vai durar a noite inteira. Mas a garrafa não.
A televisão aberta transmite filmes velhos e dublados de quinta, ou canais de venda, ou pastores exorcizando o capeta. Nenhuma música. Ninguém trepando.
03:00 A.M.
O advogado tenta se lembrar de todas as mulheres que ele comeu em 57 anos. Foram 5, incluindo sua esposa. Nenhuma foda boa o suficiente para render uma punheta meia bomba para passar o tempo.
Ele também não consegue pensar em nenhuma fantasia pornô que tenha tido com qualquer secretariazinha ou estagiária do escritório. Isso o faz se questionar: que merda eu estava pensando esse tempo todo?..
Depoois de ter zerado sua conta no banco, ele não pôde pagar o aluguel dessa kitnet no centro da cidade. Não pôde pagar a hipotéca da casa da esposa e nem as prestações do carro.
04:00 A.M.
Eles está sentado no escuro com um pedaço de papel na mão. E está velho porque não consegue distinguir as letras borradas que formam várias listras. Mas ele não precisa mais ler aquela bosta. É só burocracia. Ele já ouviu essa mensagem da boca de uma secretariazinha do escritório do patrão;
"Neste momento seus serviços não são mais necessários. Ficamos gratos de saldar os seus encargos trabalhistas relativos à sua função. Obrigado por ter colaborado com o sucesso do nosso escritório."
Obrigado? Ele pensa. Como se tivesse feito um favor à eles.
05:00 A.M.
A noite fica azul escuro e ele tranca a porta do pequeno cômodo deixando a chave na porta. Desce a escada e enfia a mão no bolso para catar umas moedas para abastecer o carro até chegar em casa.
Depois de alguns quarteirões ele estaciona num belo sobrado com gramado aparado. Aciona o portão automático da garagem e entra. Sobe pela escada social até o segundo andar onde deixa cair as chaves sobre o aparador. Ele entra com cuidado no quarto ventilado. Chuta a maleta pra debaixo da cama e se enfia no meio do lençol de seda com seus sapatos engraxados.
A mulher acende o abajour:
- Agora, amor?
- Pois é, tive uma reunião com uns clientes. Tô quase fechando um contrato bem lucrativo pra gente.
- Você tá com bafo de bebida...
- Sabe como é, o chefe nos levou a um restaurante para puxar o saco dos clientes.
- Que bom, querido. Então eu posso mandar instalar aquela jacuzzi do catálogo?
- Você pode fazer o que quiser, meu bem.
Foi a última vez que ele trepou com a sua mulher.
Foi a última vez que ele trepou com uma mulher.
Foi a última vez que ele trepou.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Vadia #1
Você acorda e percebe. Está bem alí naquele beco escuro. Jogado no meio dos sacos de lixo e garrafas quebradas. Perdeu um sapato; do pé direito. Você abre os olhos e tenta se levantar. A cabeça dói muito. Você sente o sangue seco na testa e o calombo acima da nuca. Porra, como dói.
Uma única lâmpada mortiça pende sobre a porta dos fundos do pub de onde você foi chutado. Parece que ainda estão tocando led Zeppelin mas você não tem certeza. O som abafado atravessa a porta de ferro e chega distorcido nos seus tímpanos. De vez em quando uma risada alta e alguns palavrões sobressaem no burburinho. E a guitarra do Jimmy Page.
Tá bom, você pensa. E agora?
E agora você está fodido. Você foi enganado e espancado. Você foi roubado e largado na rua como um cachorro morimbundo que ninguém quer sacrificar. Por que você enfia a mão no bolso da calça e não encontra a carteira. Tateia entre os sacos pretos cheio de macarrão azedo e bitas de cigarro.
***
- OE! Você é retardado ou o quê?
- Não, espera aí, não foi isso que eu quis dizer...
- Ei, ei, esse cara perdeu a noção! Você sabe onde você tá, filho da puta? Você sabe com quem tá falando, seu monte de bosta!!!
- ... o senhor entendeu errado... espera, não foi minha intenção... não...
- Você tá me chamando de burro, seu viadinho? Seu filho de uma prostituta arrombada. Ei, quanto esse cara ta devendo?...
- Dois whiskeys e duas Bud.
- Você está fodido, seu escroto!!!
***
Você entra no bar e pede uma budweiser. Apoia os cotovelos de costas no balcão. Dá uma olhada no movimento. As poucas mulheres estão acompanhadas e metade dos seus acompanhantes estão bêbados. O tédio está estampado na cara delas e só o que elas podem fazer é beber como eles. Numa noite dessas não é tão difícil dar uma rapidinha nos fundos do bar ou ganhar uma boquete no banheiro masculino.
***
Então você se levanta do chão. Sacode os restos de alface e espaguete da calça. Pisoteia os cacos de vidros com o pé direito, com a meia rasgada nos dedos. Sua cabeça gira 360º. E você tenta fixar na lâmpada mortiça que pende sobre a porta dos fundos do pub;
***
Você segue a mulher até o bar como um tubarão atraído pelo cheiro de sangue. Ela te olha fingindo que não vê você e continua andando com um risinho safado na cara. Você está fisgado. Aproveite que você ainda tem uns trocados na carteira e encharque essa vadia de alcoól até ela não poder resistir e trepar com você no primeiro quartinho pago por hora.
***
Ele usa sua cabeça para abrir a porta e te arremessam pela escadinha de ferro. Você escuta os últimos insultos entre gargalhadas e a música alta, ele volta para o bar e o barulho fica abafado e distante. De repente o beco cai na penumbra entre os ecos de orgia.
***
Ela esta sozinha na mesa. Bebendo vodka. Um maço de Lucky Strike sobre a mesa. A filha da puta é gata. Você observa em slow motion o movimento das suas mãos levando um cigarro à boca. O clique do seu isqueiro abafa o barulho, a chama carburando as folhas de tabaco, a expanção dos seus pulmões inalando a fumaça. E ela solta com os lábios semi-abertos. Aquela boca grossa borrada de vermelho, manchando o filtro do cigarro.
***
- Você tá sozinha?
- Agora não.
- OE, um whiskey e outra cerveja. E uma dose pra moça!
***
Você sente o cheiro de loção de barba vagabunda do leão de chácara. O peso daquela mão gorda e suada nos seus ombros. Ele baforeja a sentença no seu ouvido, encostando o beiço inchado cheio de baba em você. Ela sumiu da mesa com seu Lucky Strike e nem deixou fumaça. Depois disso a escuridão... Flashs do neon vermelho e rostos distorcidos. A porta dos fundos se aproxima bem rápido, sem você dar um passo. Algum descabaçado mete a mão na sua bunda. E então BLAM!!!
***
Enquanto você se arrasta pela parede e a música continua alta, sua cabeça dói e os ratos do beco levam seu sapato, enquanto você resmunga em frente a única janela não tapada com madeira, lá dentro o leão de chácara, o barman e a vadia, dividem entre si o dinheiro da sua carteira.
***
- OE! Você é retardado ou o quê?
- Não, espera aí, não foi isso que eu quis dizer...
- Ei, ei, esse cara perdeu a noção! Você sabe onde você tá, filho da puta? Você sabe com quem tá falando, seu monte de bosta!!!
- ... o senhor entendeu errado... espera, não foi minha intenção... não...
- Você tá me chamando de burro, seu viadinho? Seu filho de uma prostituta arrombada. Ei, quanto esse cara ta devendo?...
- Dois whiskeys e duas Bud.
- Você está fodido, seu escroto!!!
***
Você entra no bar e pede uma budweiser. Apoia os cotovelos de costas no balcão. Dá uma olhada no movimento. As poucas mulheres estão acompanhadas e metade dos seus acompanhantes estão bêbados. O tédio está estampado na cara delas e só o que elas podem fazer é beber como eles. Numa noite dessas não é tão difícil dar uma rapidinha nos fundos do bar ou ganhar uma boquete no banheiro masculino.
***
Então você se levanta do chão. Sacode os restos de alface e espaguete da calça. Pisoteia os cacos de vidros com o pé direito, com a meia rasgada nos dedos. Sua cabeça gira 360º. E você tenta fixar na lâmpada mortiça que pende sobre a porta dos fundos do pub;
***
Você segue a mulher até o bar como um tubarão atraído pelo cheiro de sangue. Ela te olha fingindo que não vê você e continua andando com um risinho safado na cara. Você está fisgado. Aproveite que você ainda tem uns trocados na carteira e encharque essa vadia de alcoól até ela não poder resistir e trepar com você no primeiro quartinho pago por hora.
***
Ele usa sua cabeça para abrir a porta e te arremessam pela escadinha de ferro. Você escuta os últimos insultos entre gargalhadas e a música alta, ele volta para o bar e o barulho fica abafado e distante. De repente o beco cai na penumbra entre os ecos de orgia.
***
Ela esta sozinha na mesa. Bebendo vodka. Um maço de Lucky Strike sobre a mesa. A filha da puta é gata. Você observa em slow motion o movimento das suas mãos levando um cigarro à boca. O clique do seu isqueiro abafa o barulho, a chama carburando as folhas de tabaco, a expanção dos seus pulmões inalando a fumaça. E ela solta com os lábios semi-abertos. Aquela boca grossa borrada de vermelho, manchando o filtro do cigarro.
***
- Você tá sozinha?
- Agora não.
- OE, um whiskey e outra cerveja. E uma dose pra moça!
***
Você sente o cheiro de loção de barba vagabunda do leão de chácara. O peso daquela mão gorda e suada nos seus ombros. Ele baforeja a sentença no seu ouvido, encostando o beiço inchado cheio de baba em você. Ela sumiu da mesa com seu Lucky Strike e nem deixou fumaça. Depois disso a escuridão... Flashs do neon vermelho e rostos distorcidos. A porta dos fundos se aproxima bem rápido, sem você dar um passo. Algum descabaçado mete a mão na sua bunda. E então BLAM!!!
***
Enquanto você se arrasta pela parede e a música continua alta, sua cabeça dói e os ratos do beco levam seu sapato, enquanto você resmunga em frente a única janela não tapada com madeira, lá dentro o leão de chácara, o barman e a vadia, dividem entre si o dinheiro da sua carteira.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Fugitivo
A rodovia no escuro. De vez em quando a luz de faróis atravesa a estrada iluminando o asfalto molhado. Quando anoitece tudo fica mudo, exceto quando pneus rasgam o silêncio e derrapam na pista. E eu observo dessa janela.
Grandes caminhões-containers com seus olofotes. Produzem um som agudo até desaparecem no contorno da serra. E as luzes vermelhas sumirem no meio dos pinheiros. As vezes demora muito até passar um carro. Então os únicos barulhos são das corujas e morcegos no alto das árvores. E do meu intestino fodido.
A cabana não tem luz elétrica, nem água. A chama do meu cigarro é o único ponto iluminado na escuridão. E esse é o último. O isqueiro não pode servir como fonte de calor, é arriscado deixar vazar luz pelas frestas da janela, por menor que seja. Um vagalume nessa penumbra pode ser confundido com um ovni.
Sobrou uma lata de salsicha. Saio tateando o piso de tacos de madeira, procurando meu canivete. Desisto depois de perceber que é inútil. Depois de três dias o cardápio à base de salsicha enlatada é intragavel. É uma questão de tempo pra me pegarem aqui. A cadeia já não parece tão miserável assim. Se eu puder cagar com algum conforto, tudo bem.
Uma freada brusca interrompe meu torpor. Faróis vermelhos passam zunindo nas paredes, e com eles o barulho das rádio-patrulhas. É isso aí, chegou a hora. Engatilho a colt, me levanto rente à parede e meto o pé nas tábuas de madeira da janela. Mando bala berrando palavrões e arranco cascas das árvores ao redor da cabana. Por um momento me dou conta de que os carros da polícia já vão longe e as sirenes somem na escuridão da noite.
E eu descarrego a arma no meio do nada.
Otário.
A baforada de ar quente do motor de um volvo de quatro eixos bate na minha cara. Volto pra dentro da cabana, agora sem nenhuma intenção de me manter invisível. Me jogo na escuridão, com a luz da lua vazando pela janela quebrada queimando meu rosto. E a neblina da noite se arrastando pelo chão. Quem se importa?
Abro e fecho o isqueiro só pra ouvir seu "clique". Observo a forma perfeita da sua chama com a base azulada. Pouso a mão esquerda aberta sobre o fogo até não aguentar. Um leve cheiro de hambúrguer toma conta da cabana. Então noto essa lata vazia com a tampa afiada. Onde dói menos, no pulso ou na garganta?
Começo a esfregar a lata afiada no pulso esquerdo em movimentos horizontais e percebo que isso vai levar tempo. O sangue espirra primeiro bem fino e morno, e vai tomando consistência a medida que o corte se aprofunda. Mas vai levar tempo.
Droga. Três dia de salsicha enlatada. Sem dormir. Talvez a polícia nem esteja atrás de mim. Foi tudo um delírio, não foi? Eu imaginei tudo isso. Um batedor de carteira com ilusões de grandeza. Eu sabia que não era minha cara naquele cartaz, porquê eu me meti nisso?
Estou cansado e sangrando muito. De repente minhas tripas se contorcem violentamente. Droga, não posso ser encontrado morto cheio de merda nas calças. Tenho que morrer com o pouco de dignidade que me resta. Paro de cortar e me levanto, meio tonto e sangrando muito. Saio da cabana me escorando numa árvore. Me agaicho no meio do mato com a calça no tornozelo. Ah, evacuo três dia de salchicha enlatada.
- Parado! Mão na cabeça!
Merda.
A lanterna dos tiras ofuscam meu olhos. Bem na hora que a merda sai com força do meu cu e respinha nos meus calcanhares. O jato de bosta elameia o mato. Que desgraça.
- Você tá preso, cagão!
Eles me algemam enquanto solto os últimos gases agudos. Erguem minhas calças e me arrastam até o camburão e me fazem senter sobre meu cu todo melado.
Grandes caminhões-containers com seus olofotes. Produzem um som agudo até desaparecem no contorno da serra. E as luzes vermelhas sumirem no meio dos pinheiros. As vezes demora muito até passar um carro. Então os únicos barulhos são das corujas e morcegos no alto das árvores. E do meu intestino fodido.
A cabana não tem luz elétrica, nem água. A chama do meu cigarro é o único ponto iluminado na escuridão. E esse é o último. O isqueiro não pode servir como fonte de calor, é arriscado deixar vazar luz pelas frestas da janela, por menor que seja. Um vagalume nessa penumbra pode ser confundido com um ovni.
Sobrou uma lata de salsicha. Saio tateando o piso de tacos de madeira, procurando meu canivete. Desisto depois de perceber que é inútil. Depois de três dias o cardápio à base de salsicha enlatada é intragavel. É uma questão de tempo pra me pegarem aqui. A cadeia já não parece tão miserável assim. Se eu puder cagar com algum conforto, tudo bem.
Uma freada brusca interrompe meu torpor. Faróis vermelhos passam zunindo nas paredes, e com eles o barulho das rádio-patrulhas. É isso aí, chegou a hora. Engatilho a colt, me levanto rente à parede e meto o pé nas tábuas de madeira da janela. Mando bala berrando palavrões e arranco cascas das árvores ao redor da cabana. Por um momento me dou conta de que os carros da polícia já vão longe e as sirenes somem na escuridão da noite.
E eu descarrego a arma no meio do nada.
Otário.
A baforada de ar quente do motor de um volvo de quatro eixos bate na minha cara. Volto pra dentro da cabana, agora sem nenhuma intenção de me manter invisível. Me jogo na escuridão, com a luz da lua vazando pela janela quebrada queimando meu rosto. E a neblina da noite se arrastando pelo chão. Quem se importa?
Abro e fecho o isqueiro só pra ouvir seu "clique". Observo a forma perfeita da sua chama com a base azulada. Pouso a mão esquerda aberta sobre o fogo até não aguentar. Um leve cheiro de hambúrguer toma conta da cabana. Então noto essa lata vazia com a tampa afiada. Onde dói menos, no pulso ou na garganta?
Começo a esfregar a lata afiada no pulso esquerdo em movimentos horizontais e percebo que isso vai levar tempo. O sangue espirra primeiro bem fino e morno, e vai tomando consistência a medida que o corte se aprofunda. Mas vai levar tempo.
Droga. Três dia de salsicha enlatada. Sem dormir. Talvez a polícia nem esteja atrás de mim. Foi tudo um delírio, não foi? Eu imaginei tudo isso. Um batedor de carteira com ilusões de grandeza. Eu sabia que não era minha cara naquele cartaz, porquê eu me meti nisso?
Estou cansado e sangrando muito. De repente minhas tripas se contorcem violentamente. Droga, não posso ser encontrado morto cheio de merda nas calças. Tenho que morrer com o pouco de dignidade que me resta. Paro de cortar e me levanto, meio tonto e sangrando muito. Saio da cabana me escorando numa árvore. Me agaicho no meio do mato com a calça no tornozelo. Ah, evacuo três dia de salchicha enlatada.
- Parado! Mão na cabeça!
Merda.
A lanterna dos tiras ofuscam meu olhos. Bem na hora que a merda sai com força do meu cu e respinha nos meus calcanhares. O jato de bosta elameia o mato. Que desgraça.
- Você tá preso, cagão!
Eles me algemam enquanto solto os últimos gases agudos. Erguem minhas calças e me arrastam até o camburão e me fazem senter sobre meu cu todo melado.
Estrada de Ferro
Ele calçou a bota de ferro como todas as manhãs. Barbeou aquela cara cansada em frente ao espelho. Deu um gole no café morno e aguado da noite anterior e cuspiu o resto pelo ralo da pia. Abotoou a gola do macacão, apagou as luzes e saiu
A fechadura da porta estalou sozinha dentro do apartamento escuro. A sombra de seus pés deu a volta e desapareceu pelo feixe de luz na fresta da porta. Seus passos pesados descendo os degraus de madeira da velha pensão ecoaram no silêncio.
A estrada de ferro cruza o caminho para a fabrica. As pessoas se agarram a qualquer coisa para fugir do vazio de suas vidas ordinárias. Elas fazem projetos e inventam problemas, planejam o futuro e se ocupam de coisas importantes para não encarar a falta de sentido de tudo isso. Criam valores para investir, propósitos para suas existências. Só para disfarçar a verdade - o que ninguém consegue enxergar. Mas não sobrou nada pra ele se agarrar. Ele é testemunha do seu próprio fracasso.
Enquanto ele esperava o trem, observava as outras pessoas. De um lado para outro, como formigas. Atrasadas. Preocupadas. Tentando não enxergar o óbvio. Ignorando o que só ele vê. Se uma tempestade destruisse tudo e acabasse com toda essa presunção? As pessoas se cercam de ilusão para negar a falta de controle sobre suas próprias vidas. Será que alguma coisa realmente vale a pena?
O trem se aproximava. Ele escutava o barulho do atrito das rodas no trilho. Outras pessoas recuaram um passo, ele não. O primeiro vagão passou sem reduzir a velocidade. O impacto do deslocamento de ar sobre sou corpo enfim o empurrou para trás. Quando o segundo vagão se aproximou ele se jogou sobre essa massa diabólica de ferro e velocidade. Newton pode explicar o resto.
Seu corpo de carne e osso contra toneladas de ferro á 100 km/h.
O primeiro impacto arremessou seu tronco sobre os trilhos e lavou a cara das pessoas com seu sangue. As rodas como guilhotinas sobre suas pernas e seu ventre. O trem continuou correndo sem piedade. E o relógio no seu pulso continuou correndo sem piedade. Atropelando tudo a sua frente.
Ele permaneceu consciente em seus últimos minutos. Tentando levantar o corpo mutilado. Apalpou seu baixo ventre e não havia nada. Só as tripas vertendo pra fora. Suas pernas se arrastaram por uns dez metros a frente, presas nas rodas. Como aquele fiapo de carne nos dentes depois do almoço. As pessoas se amontoavam sobre seus pedaços, porque é mais real que no cinema, e com baixo orçamento. Ele tentou falar mas o sangue grosso inundava sua boca. E os celulares transmitiam em tempo real sua agonia. Seu olhar de espanto e confusão eternizado. Ninguém ali podia fazer nada além de divulgar sua morte na internet. E então todo mundo seria testemunha do seu fracasso.
A fechadura da porta estalou sozinha dentro do apartamento escuro. A sombra de seus pés deu a volta e desapareceu pelo feixe de luz na fresta da porta. Seus passos pesados descendo os degraus de madeira da velha pensão ecoaram no silêncio.
A estrada de ferro cruza o caminho para a fabrica. As pessoas se agarram a qualquer coisa para fugir do vazio de suas vidas ordinárias. Elas fazem projetos e inventam problemas, planejam o futuro e se ocupam de coisas importantes para não encarar a falta de sentido de tudo isso. Criam valores para investir, propósitos para suas existências. Só para disfarçar a verdade - o que ninguém consegue enxergar. Mas não sobrou nada pra ele se agarrar. Ele é testemunha do seu próprio fracasso.
Enquanto ele esperava o trem, observava as outras pessoas. De um lado para outro, como formigas. Atrasadas. Preocupadas. Tentando não enxergar o óbvio. Ignorando o que só ele vê. Se uma tempestade destruisse tudo e acabasse com toda essa presunção? As pessoas se cercam de ilusão para negar a falta de controle sobre suas próprias vidas. Será que alguma coisa realmente vale a pena?
O trem se aproximava. Ele escutava o barulho do atrito das rodas no trilho. Outras pessoas recuaram um passo, ele não. O primeiro vagão passou sem reduzir a velocidade. O impacto do deslocamento de ar sobre sou corpo enfim o empurrou para trás. Quando o segundo vagão se aproximou ele se jogou sobre essa massa diabólica de ferro e velocidade. Newton pode explicar o resto.
Seu corpo de carne e osso contra toneladas de ferro á 100 km/h.
O primeiro impacto arremessou seu tronco sobre os trilhos e lavou a cara das pessoas com seu sangue. As rodas como guilhotinas sobre suas pernas e seu ventre. O trem continuou correndo sem piedade. E o relógio no seu pulso continuou correndo sem piedade. Atropelando tudo a sua frente.
Ele permaneceu consciente em seus últimos minutos. Tentando levantar o corpo mutilado. Apalpou seu baixo ventre e não havia nada. Só as tripas vertendo pra fora. Suas pernas se arrastaram por uns dez metros a frente, presas nas rodas. Como aquele fiapo de carne nos dentes depois do almoço. As pessoas se amontoavam sobre seus pedaços, porque é mais real que no cinema, e com baixo orçamento. Ele tentou falar mas o sangue grosso inundava sua boca. E os celulares transmitiam em tempo real sua agonia. Seu olhar de espanto e confusão eternizado. Ninguém ali podia fazer nada além de divulgar sua morte na internet. E então todo mundo seria testemunha do seu fracasso.
Procurado
Cheguei ontem na cidade. Minha perna ainda doía pra caralho. Trouxe a Magnum intocada no case da guitarra. Me hospedei nesse hotel barato para passar a noite. Dei um nome falso e paguei com o cartão de crédito de outra pessoa. É foda sair fugido da sua cidade natal. Pior ainda se a cidade tiver menos de dez mil habitantes que reconheceriam sua cara estampada num cartaz na parede da delegacia de polícia - com a palavra PROCURADO escrita em grandes letras vermelhas.
Até agora não consgui achar um lugar adequado para a encomenda. Essa porra está fedendo e vai começar a chamar a atenção. Merda, isso é um pesadelo. Quando foi que a minha vida se transformou nisso? Melhor nem pensar.
Ligo a t.v. para aumentar o meu ódio.
Bosta! Devia ter pedido um quarto com frigobar. Isso resolveria o problema pelo menos por enquanto. Desço até a recepção para comprar mais gelo. A atendente até que é gostozinha e tá me dando chance. Talvez eu foda com ela pra aliviar a tensão. Talvez eu foda.
- Ei moço! Talvez seja melhor você mudar de quarto. Pegar um com frigobar. Que cê acha?
- Tá bom assim. - Eu disse.
- Jura? Você não ia precisar de todo esse gelo né... além do mais...
Parei em frente a garota com o pacote de gelo debaixo do braço.
- Além do mais existem coisas melhores do que assistir televisão.
Fodemos no meu quarto sem frigobar.
Ela tinha os peitos gordos, cheios de estrias perto dos mamilos. Isso estava oculto pelo decote quando eu os fitava descaradamente na recepção. Você sabe, a propaganda é a alma do negócio. E ela tinha a boceta apertada e uma bunda bem redonda e durinha. Bem que valeu a pena. Ela só podia ficar quinze minutos fora da recepção por isso fomos direto ao assunto. Quando gozamos ela começou a se vestir e me perguntou quanto tempo eu ficaria ali. Eu não sabia, podia levar semanas ou amanhã mesmo estaria fora. Disse que a avisaria quando soubesse e ela me mostrou seus belos dentes amarelos.
- O que é aquilo? - Ela perguntou apontando o pacote embrulhado em jornal.
- Um animal morto.
- Argh! Porque você carrega isso? O que vai fazer com ele?
- Não é da sua conta.
- Essa coisa tá fedendo. Você vai empalhar ou coisa assim? Era seu bichinho de estimação, não era?
- Vou empalhar.
- Tadinho. Vou arrumar um esopor pra você. Depois eu volto.
Vestiu seu Jeans rasgado nos joelhos e a blusinha recortada no decote para exibir melhor seu produto. Desceu a escada e eu fiquei deitado nu sobre o lençol molhado e encardido. Não sobrou nenhuma cerveja e tive que destampar a garrafa de Jack Daniel´s com as chaves. O whisky desceu queimando a garganta e o estômago, depois amorteceu minha lingua e a minha mente. Foi fácil engolir metade da garrafa. Quando a garota voltou com a caixa, agarrei seus cabelos e puxei pra dentro do quarto. Ela olhou para meu rosto: olhos vidrados. Olhou para o criado mudo: Meia garrafa de whisky. Tentou abrir a porta atrás de si rapidamente mas eu já havia bloqueado sua passagem com o braço. Ela me olhou chorosa sabendo o que tinha que fazer. Baixou a cabeça em direção ao meu pau e começou a chupar entre gemidos e soluços.
Até agora não consgui achar um lugar adequado para a encomenda. Essa porra está fedendo e vai começar a chamar a atenção. Merda, isso é um pesadelo. Quando foi que a minha vida se transformou nisso? Melhor nem pensar.
Ligo a t.v. para aumentar o meu ódio.
Bosta! Devia ter pedido um quarto com frigobar. Isso resolveria o problema pelo menos por enquanto. Desço até a recepção para comprar mais gelo. A atendente até que é gostozinha e tá me dando chance. Talvez eu foda com ela pra aliviar a tensão. Talvez eu foda.
- Ei moço! Talvez seja melhor você mudar de quarto. Pegar um com frigobar. Que cê acha?
- Tá bom assim. - Eu disse.
- Jura? Você não ia precisar de todo esse gelo né... além do mais...
Parei em frente a garota com o pacote de gelo debaixo do braço.
- Além do mais existem coisas melhores do que assistir televisão.
Fodemos no meu quarto sem frigobar.
Ela tinha os peitos gordos, cheios de estrias perto dos mamilos. Isso estava oculto pelo decote quando eu os fitava descaradamente na recepção. Você sabe, a propaganda é a alma do negócio. E ela tinha a boceta apertada e uma bunda bem redonda e durinha. Bem que valeu a pena. Ela só podia ficar quinze minutos fora da recepção por isso fomos direto ao assunto. Quando gozamos ela começou a se vestir e me perguntou quanto tempo eu ficaria ali. Eu não sabia, podia levar semanas ou amanhã mesmo estaria fora. Disse que a avisaria quando soubesse e ela me mostrou seus belos dentes amarelos.
- O que é aquilo? - Ela perguntou apontando o pacote embrulhado em jornal.
- Um animal morto.
- Argh! Porque você carrega isso? O que vai fazer com ele?
- Não é da sua conta.
- Essa coisa tá fedendo. Você vai empalhar ou coisa assim? Era seu bichinho de estimação, não era?
- Vou empalhar.
- Tadinho. Vou arrumar um esopor pra você. Depois eu volto.
Vestiu seu Jeans rasgado nos joelhos e a blusinha recortada no decote para exibir melhor seu produto. Desceu a escada e eu fiquei deitado nu sobre o lençol molhado e encardido. Não sobrou nenhuma cerveja e tive que destampar a garrafa de Jack Daniel´s com as chaves. O whisky desceu queimando a garganta e o estômago, depois amorteceu minha lingua e a minha mente. Foi fácil engolir metade da garrafa. Quando a garota voltou com a caixa, agarrei seus cabelos e puxei pra dentro do quarto. Ela olhou para meu rosto: olhos vidrados. Olhou para o criado mudo: Meia garrafa de whisky. Tentou abrir a porta atrás de si rapidamente mas eu já havia bloqueado sua passagem com o braço. Ela me olhou chorosa sabendo o que tinha que fazer. Baixou a cabeça em direção ao meu pau e começou a chupar entre gemidos e soluços.
Nota Suicida
O sangue que escorre pelo braço, goteja sobre o teclado. É escuro e espesso. Fede. Uma poça se formou entre as letras "a", "s" e "d". E na tela do computador a página em branco rindo da minha cara... Meus dedos ezitam sobre as teclas. Os olhos correm os titúlos de outros mortos na estante. Tudo está embassado.
Tenho pouco tempo, então vamos logo com essa porra. Ele escorre vermelho escarlate pelas minhas mãos.
Difícil resumir todos os anos de tédio e tristeza dessa vida patética. Todas as lágrimas pela cerveja derramada ou pela boceta não comida. As gargalhadas de desespero e sorrisos amarelos, para pessoas que não me importam em situações em que estive pouco me fodendo... dias e horas e segundos que esperei em vão por qualquer merda, trabalhei por porra nenhuma e fiquei puto sem qualquer razão. Tudo isso para acabar aqui. Assim.
Tenho que terminar logo com isso. Minha cabeça pende sobre a escrivaninha e sinto nos pés o sangue quente vertendo das minhas mãos. Reúno as últimas forças para escrever enquanto meus nove dedos jazem inertes sobre o assoalho ensanguentado. Tudo o que posso deixar é uma sentença:
Foda-se.
Tenho pouco tempo, então vamos logo com essa porra. Ele escorre vermelho escarlate pelas minhas mãos.
Difícil resumir todos os anos de tédio e tristeza dessa vida patética. Todas as lágrimas pela cerveja derramada ou pela boceta não comida. As gargalhadas de desespero e sorrisos amarelos, para pessoas que não me importam em situações em que estive pouco me fodendo... dias e horas e segundos que esperei em vão por qualquer merda, trabalhei por porra nenhuma e fiquei puto sem qualquer razão. Tudo isso para acabar aqui. Assim.
Tenho que terminar logo com isso. Minha cabeça pende sobre a escrivaninha e sinto nos pés o sangue quente vertendo das minhas mãos. Reúno as últimas forças para escrever enquanto meus nove dedos jazem inertes sobre o assoalho ensanguentado. Tudo o que posso deixar é uma sentença:
Foda-se.
domingo, 10 de julho de 2011
Os Assassinos
[Ernest Hemingway]
A porta da lanchonete Henry’s abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.
- O que é que vai ser? – perguntou George.
- Não sei – disse um dos homens. – O que é que você quer comer, Al?
- Não sei – disse Al. – Não sei o que quero comer.
Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.
- Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas – disse o primeiro homem.
- Não está pronto ainda.
- Então por que diabos põem isto no cardápio?
- Isto é o jantar – explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.
George olhou para o relógio arás do balcão.
- São cinco horas.
- O relógio marca cinco e vinte – disse o segundo homem.
- Está vinte minutos adiantado.
- Ah, pro inferno com o relógio – disse o primeiro homem. – O que você tem para comer?
- Posso servir qualquer tipo de sanduíche – disse George. – Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.
- Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.
- Isto é o jantar.
- Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?
- Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado…
- Vou querer presunto e ovos – disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.
- Me dê bacon e ovos – disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.
- Tem algo para beber? – perguntou Al.
- Cerveja, sucos e refrigerantes.
- Perguntei se tinha alguma coisa para beber?
- Só o que eu disse.
- Esta é uma cidade quente – disse o outro. – Como se chama?
- Summit.
- Já tinha ouvido? – perguntou Al ao amigo.
- Não – disse o amigo.
- O que fazem por aqui à noite? – perguntou Al.
- Eles jantam – disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.
- É isso mesmo – disse George.
- Então você acha isso mesmo? – Al perguntou a George.
- Claro.
- Você é um rapaz espertinho, não é?
- Claro – disse George.
- Bem, mas não é – disse o outro sujeito. – Você acha que ele é, Al?
- Ele é um bobo – disse Al. Virou-se para Nick. – Qual é o seu nome?
- Adams.
- Outro espertinho – disse Al. – Ele não é um espertinho, Max?
- A cidade está cheia de espertinhos – disse Max.
George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.
- Qual é o seu – perguntou a Al.
- Não se lembra?
- Presunto e ovos.
- É mesmo um espertinho – disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.
- O que está olhando? Max olhou para George.
- Nada.
- Vá pro inferno. Você estava me olhando.
- Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max – disse Al.
George riu.
- Você não tem que rir – disse Max. Não tem nada para rir, viu?
- Está bem – disse George.
- E ele pensa que está tudo certo – disse Max virando-se para Al. – Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.
- Ora, ele é um filósofo – disse Al. Continuaram comendo.
- Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? – perguntou Al para Max.
- Ei, espertinho – disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.
- Qual é a idéia? – perguntou Nick.
- Não há idéia nenhuma.
- É melhor dar a volta, espertinho – disse Al. Nick passou para trás do balcão.
- Qual é a idéia? – perguntou George.
- Não é da sua maldita conta – disse Al. – Quem está na cozinha?
- O negro.
- O que quer dizer com “o negro”?
- O negro da cozinha.
- Diga-lhe para entrar.
- Onde pensam que estão?
- Maldição, sabemos muito bem onde estamos – disse o homem chamado Max. – Parecemos tolos?
- Você fala como um tolo – disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui – disse a George -, diga ao negro para vir aqui.
- O que vão fazer com ele?
- Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?
George abriu o postigo da cozinha. – Sam – chamou. – Venha aqui um minuto.
A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. – Que foi? – perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.
- Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo – disse Al.
Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. – Sim, senhor – disse. Al desceu do seu banco.
- Vou à cozinha com o negro e o espertinho – disse ele. – Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. – O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry’s tinha sido transformado de salão em lanchonete.
- E então, espertinho – disse Max olhando para o espelho – por que não diz alguma coisa?
- E por que tudo isso?
- Ei, Al – chamou Max – o espertinho quer saber por que tudo isso.
- Por que não diz a ele? – a voz de Max veio da cozinha.
- O que você pensa de tudo isso?
- Não sei.
- Que acha?
Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.
- Eu não diria.
- Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.
- Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. – Escute, espertinho – disse a George, da cozinha. – Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. – Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.
- Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?
George não disse nada.
- Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?
- Sim.
- Ele vem jantar todas as noites, não vem?
- Ele vem aqui às vezes.
- Ele vem às seis horas, não vem?
- Quando vem.
- Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?
- De vez em quando.
- Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.
- Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?
- Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.
E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.
- Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.
- Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.
- Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.
- Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?
- Você fala demais, droga – disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.
- Eu suponho que você esteve num convento.
- Nunca se sabe.
- Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.
George olhou o relógio.
- Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?
- Tudo bem – disse George. – O que vai ser com a gente depois?
- Isso depende – disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.
George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.
- Oi, George – disse ele. – Posso jantar?
- Sam saiu – disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.
- É melhor eu procurar outro lugar – disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.
- Muito bom, espertinho – disse Max. Você até que é um cavalheiro.
- Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça – disse Al, da cozinha.
- Não – disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.
Às seis e cinqüenta e cinco George disse: – Ele não vem.
Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para “viagem”, que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.
- O espertinho sabe fazer de tudo – disse Max. – Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.
- É? – disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.
- Vamos dar-lhe dez minutos – disse Max.
Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.
- Vamos, Al – disse Max. – É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.
- É melhor dar-lhe mais cinco minutos – disse Max, da cozinha.
- Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.
- Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? – perguntou o homem. – É assim que é. Saiu.
- Vamos, Al – disse Max.
- Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?
- Não tem problema.
- Você acha?
- Claro. Já terminamos com isso.
- Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.
- Ah, mas que inferno – disse Max. Temos que nos divertir, não temos?
- Dá no mesmo, você fala demais – disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.
- Até logo, espertinho – disse ele a George. – Você tem muita sorte.
- É verdade – disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.
Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.
- Eu não quero mais nada disso – disse Sam, o cozinheiro. – Eu não quero mais nada disso.
Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.
- Escutem – disse ele. – Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.
- Eles iam matar Ole Anderson – disse George. – Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.
- Ole Anderson?
- Sim.
O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.
- Foram todos embora? – perguntou.
- Sim – disse George. Já foram.
- Eu não gosto disso – disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.
- Escute – disse George a Nick. – É melhor você procurar Ole Anderson.
- Certo.
- É melhor você não se meter em nada disso – disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.
- Irei procurá-lo – disse Nick a George. – Onde ele mora?
O cozinheiro se afastou.
- Garotos sempre fazem o que querem – disse ele.
- Vive na pensão de Hirsch – disse George a Nick.
- Vou até lá.
Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.
- Ole Anderson está?
- Você quer vê-lo?
- Se ele estiver.
Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.
- Quem é?
- É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson – disse a mulher.
- É Nick Adams.
- Entre.
Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.
- O que foi – ele perguntou.
- Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.
Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.
- Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.
Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.
George achou melhor eu vir contar a você.
- Não há nada que eu possa fazer a respeito – disse Ole Anderson.
- Vou lhe dizer como eles eram.
- Eu não quero saber como eles eram – disse Ole Anderson, olhando para a parede. – Obrigado por vir me contar.
- Tá certo.
Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.
- Não quer que eu vá a polícia?
- Não – disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer?
- Talvez fosse apenas um blefe.
- Não. Não foi um blefe.
Ole Anderson virou-se para a parede.
- O pior é que – disse ele, voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.
- Você não poderia sair da cidade?
- Não – disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.
Olhava para a parede.
- Já não há mais nada a fazer agora.
- Não dá para resolver isso de algum modo?
- Não, eu errei. – Falava com a voz neutra e sempre igual. – Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.
- É melhor eu voltar e falar com George – disse Nick.
- Até logo – disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. – Obrigado por vir até aqui.
Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.
- Ele está no quarto o dia todo – disse a senhoria no andar de baixo. – Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: “Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este”, mas ele não estava com vontade.
- Ele não quer sair.
- Lamento que não se sinta bem – disse a mulher. – Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.
- Sei.
- A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto – disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. – É um senhor tão gentil.
- Boa noite, senhora Hirsch – disse Nick.
- Eu não sou a senhora Hirsch – disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.
- Bem, boa noite, senhora Bell – disse Nick.
- Boa noite – disse a mulher.
Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry’s. George estava lá dentro, atrás do balcão.
- Esteve com Ole?
- Sim – disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.
O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.
- Não quero nem mesmo ouvir – disse, e fechou a porta.
- Você falou sobre o que aconteceu? – perguntou George.
- Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.
- O que ele vai fazer?
- Nada.
- Eles vão matá-lo.
- Acho que vão.
- Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.
- Acho que sim – disse Nick.
- Que coisa infernal!
- É uma coisa terrível – disse Nick.
Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.
- Queria saber o que ele fez – disse Nick.
- Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.
- Vou sair desta cidade – disse Nick.
- Sim – disse George. É uma boa coisa a se fazer.
- Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.
- Bem – disse George, – é melhor você não pensar nisso.
A porta da lanchonete Henry’s abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.
- O que é que vai ser? – perguntou George.
- Não sei – disse um dos homens. – O que é que você quer comer, Al?
- Não sei – disse Al. – Não sei o que quero comer.
Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.
- Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas – disse o primeiro homem.
- Não está pronto ainda.
- Então por que diabos põem isto no cardápio?
- Isto é o jantar – explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.
George olhou para o relógio arás do balcão.
- São cinco horas.
- O relógio marca cinco e vinte – disse o segundo homem.
- Está vinte minutos adiantado.
- Ah, pro inferno com o relógio – disse o primeiro homem. – O que você tem para comer?
- Posso servir qualquer tipo de sanduíche – disse George. – Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.
- Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.
- Isto é o jantar.
- Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?
- Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado…
- Vou querer presunto e ovos – disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.
- Me dê bacon e ovos – disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.
- Tem algo para beber? – perguntou Al.
- Cerveja, sucos e refrigerantes.
- Perguntei se tinha alguma coisa para beber?
- Só o que eu disse.
- Esta é uma cidade quente – disse o outro. – Como se chama?
- Summit.
- Já tinha ouvido? – perguntou Al ao amigo.
- Não – disse o amigo.
- O que fazem por aqui à noite? – perguntou Al.
- Eles jantam – disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.
- É isso mesmo – disse George.
- Então você acha isso mesmo? – Al perguntou a George.
- Claro.
- Você é um rapaz espertinho, não é?
- Claro – disse George.
- Bem, mas não é – disse o outro sujeito. – Você acha que ele é, Al?
- Ele é um bobo – disse Al. Virou-se para Nick. – Qual é o seu nome?
- Adams.
- Outro espertinho – disse Al. – Ele não é um espertinho, Max?
- A cidade está cheia de espertinhos – disse Max.
George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.
- Qual é o seu – perguntou a Al.
- Não se lembra?
- Presunto e ovos.
- É mesmo um espertinho – disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.
- O que está olhando? Max olhou para George.
- Nada.
- Vá pro inferno. Você estava me olhando.
- Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max – disse Al.
George riu.
- Você não tem que rir – disse Max. Não tem nada para rir, viu?
- Está bem – disse George.
- E ele pensa que está tudo certo – disse Max virando-se para Al. – Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.
- Ora, ele é um filósofo – disse Al. Continuaram comendo.
- Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? – perguntou Al para Max.
- Ei, espertinho – disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.
- Qual é a idéia? – perguntou Nick.
- Não há idéia nenhuma.
- É melhor dar a volta, espertinho – disse Al. Nick passou para trás do balcão.
- Qual é a idéia? – perguntou George.
- Não é da sua maldita conta – disse Al. – Quem está na cozinha?
- O negro.
- O que quer dizer com “o negro”?
- O negro da cozinha.
- Diga-lhe para entrar.
- Onde pensam que estão?
- Maldição, sabemos muito bem onde estamos – disse o homem chamado Max. – Parecemos tolos?
- Você fala como um tolo – disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui – disse a George -, diga ao negro para vir aqui.
- O que vão fazer com ele?
- Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?
George abriu o postigo da cozinha. – Sam – chamou. – Venha aqui um minuto.
A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. – Que foi? – perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.
- Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo – disse Al.
Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. – Sim, senhor – disse. Al desceu do seu banco.
- Vou à cozinha com o negro e o espertinho – disse ele. – Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. – O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry’s tinha sido transformado de salão em lanchonete.
- E então, espertinho – disse Max olhando para o espelho – por que não diz alguma coisa?
- E por que tudo isso?
- Ei, Al – chamou Max – o espertinho quer saber por que tudo isso.
- Por que não diz a ele? – a voz de Max veio da cozinha.
- O que você pensa de tudo isso?
- Não sei.
- Que acha?
Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.
- Eu não diria.
- Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.
- Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. – Escute, espertinho – disse a George, da cozinha. – Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. – Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.
- Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?
George não disse nada.
- Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?
- Sim.
- Ele vem jantar todas as noites, não vem?
- Ele vem aqui às vezes.
- Ele vem às seis horas, não vem?
- Quando vem.
- Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?
- De vez em quando.
- Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.
- Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?
- Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.
E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.
- Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.
- Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.
- Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.
- Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?
- Você fala demais, droga – disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.
- Eu suponho que você esteve num convento.
- Nunca se sabe.
- Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.
George olhou o relógio.
- Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?
- Tudo bem – disse George. – O que vai ser com a gente depois?
- Isso depende – disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.
George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.
- Oi, George – disse ele. – Posso jantar?
- Sam saiu – disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.
- É melhor eu procurar outro lugar – disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.
- Muito bom, espertinho – disse Max. Você até que é um cavalheiro.
- Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça – disse Al, da cozinha.
- Não – disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.
Às seis e cinqüenta e cinco George disse: – Ele não vem.
Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para “viagem”, que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.
- O espertinho sabe fazer de tudo – disse Max. – Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.
- É? – disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.
- Vamos dar-lhe dez minutos – disse Max.
Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.
- Vamos, Al – disse Max. – É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.
- É melhor dar-lhe mais cinco minutos – disse Max, da cozinha.
- Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.
- Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? – perguntou o homem. – É assim que é. Saiu.
- Vamos, Al – disse Max.
- Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?
- Não tem problema.
- Você acha?
- Claro. Já terminamos com isso.
- Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.
- Ah, mas que inferno – disse Max. Temos que nos divertir, não temos?
- Dá no mesmo, você fala demais – disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.
- Até logo, espertinho – disse ele a George. – Você tem muita sorte.
- É verdade – disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.
Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.
- Eu não quero mais nada disso – disse Sam, o cozinheiro. – Eu não quero mais nada disso.
Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.
- Escutem – disse ele. – Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.
- Eles iam matar Ole Anderson – disse George. – Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.
- Ole Anderson?
- Sim.
O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.
- Foram todos embora? – perguntou.
- Sim – disse George. Já foram.
- Eu não gosto disso – disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.
- Escute – disse George a Nick. – É melhor você procurar Ole Anderson.
- Certo.
- É melhor você não se meter em nada disso – disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.
- Irei procurá-lo – disse Nick a George. – Onde ele mora?
O cozinheiro se afastou.
- Garotos sempre fazem o que querem – disse ele.
- Vive na pensão de Hirsch – disse George a Nick.
- Vou até lá.
Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.
- Ole Anderson está?
- Você quer vê-lo?
- Se ele estiver.
Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.
- Quem é?
- É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson – disse a mulher.
- É Nick Adams.
- Entre.
Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.
- O que foi – ele perguntou.
- Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.
Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.
- Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.
Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.
George achou melhor eu vir contar a você.
- Não há nada que eu possa fazer a respeito – disse Ole Anderson.
- Vou lhe dizer como eles eram.
- Eu não quero saber como eles eram – disse Ole Anderson, olhando para a parede. – Obrigado por vir me contar.
- Tá certo.
Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.
- Não quer que eu vá a polícia?
- Não – disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer?
- Talvez fosse apenas um blefe.
- Não. Não foi um blefe.
Ole Anderson virou-se para a parede.
- O pior é que – disse ele, voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.
- Você não poderia sair da cidade?
- Não – disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.
Olhava para a parede.
- Já não há mais nada a fazer agora.
- Não dá para resolver isso de algum modo?
- Não, eu errei. – Falava com a voz neutra e sempre igual. – Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.
- É melhor eu voltar e falar com George – disse Nick.
- Até logo – disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. – Obrigado por vir até aqui.
Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.
- Ele está no quarto o dia todo – disse a senhoria no andar de baixo. – Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: “Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este”, mas ele não estava com vontade.
- Ele não quer sair.
- Lamento que não se sinta bem – disse a mulher. – Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.
- Sei.
- A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto – disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. – É um senhor tão gentil.
- Boa noite, senhora Hirsch – disse Nick.
- Eu não sou a senhora Hirsch – disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.
- Bem, boa noite, senhora Bell – disse Nick.
- Boa noite – disse a mulher.
Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry’s. George estava lá dentro, atrás do balcão.
- Esteve com Ole?
- Sim – disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.
O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.
- Não quero nem mesmo ouvir – disse, e fechou a porta.
- Você falou sobre o que aconteceu? – perguntou George.
- Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.
- O que ele vai fazer?
- Nada.
- Eles vão matá-lo.
- Acho que vão.
- Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.
- Acho que sim – disse Nick.
- Que coisa infernal!
- É uma coisa terrível – disse Nick.
Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.
- Queria saber o que ele fez – disse Nick.
- Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.
- Vou sair desta cidade – disse Nick.
- Sim – disse George. É uma boa coisa a se fazer.
- Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.
- Bem – disse George, – é melhor você não pensar nisso.
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