terça-feira, 11 de novembro de 2008

Beco Do Crime [2008]

Ele olhou para baixo e viu suas tripas espalhadas pelo chão. Muita merda e sangue podre. As moscas sobrevoavam seu baixo ventre como corvos na carniça. Num último segundo de consciência, tomou fôlego e declarou:
- Puta que pariu...
O outro se escorava na parede tentando chegar à rua. A ferramenta em sua mão pesava tanto quanto a culpa em suas costas. Um rastro de sangue pago em espécie. Agora já era. Pressionou as costas pesadas contra um latão de lixo e foi escorregando devagar até perceber que estava sentado sobre sua bunda. Seu olho direito havia saltado da órbita como pão na torradeira.
O advogado segurava a mão do despachante por sobre a mesa.
- Então tá tudo certo. Pegamos o cara. - Diz o despachante.
- Não quero saber dos detalhes. - Informa o advogado.
- Você é um canalha...
- O que eu quero saber é, bem, é... tem certeza de que é o homem certo?
- Porra! Fizeram o cara agora mermo. Morreu na privada - hehe. BANG! Se fodeu. Já era.
Quando o despachante bateu a porta do escritório, o advogado bufou destampando o blended 12 anos:
- Cara escroto.
O homem permaneceu ali, no beco, encostado no latão, lutando contra os tremores para acender o cigarro. Seu parceiro estava estraçalhado à alguns metros e logo os cachorros sentiriam o cheiro do jantar servido.
Havia algumas janelas iluminadas, mas no beco a escuridão era total.
Ele agradeceu quando a chuva aliviou a dor dos ferimentos. Teria que ligar para o chefe e contar a merda que deu... - Foda-se, cansado demais, fodido completamente. Pro inferno com o despachante, e o dinheiro à casa do caralho.
A água caía fina e gelava os ossos. Começou a cantarolar um refrão que vazava de uma das janelas do beco: SSShhhhhh...
Dentro do apartamento a Tv fora do ar não abafava o ruído da máquina de escrever. Uma garrafa de whisky nacional e a metade mastigada de um charuto ordinário ornamentavam a mesa. O escritor resolveu dar uma cagada; entrou no banheiro e se demorou em frente ao espelho - pensando em fazer a barba. Tinha deixado seus papéis espalhados sobre a mesa:
"Ele vem caminhando lentamente entre os olhares fulminantes e muros pixados. Para, puxa do bolso da camisa um cigarro que enfia entre os dentes, no canto esquerdo da boca, e o acende. Volta seu olhar para o nada, sabe que está sendo notado, talvez por isso deixa escapar um sorriso irônico..."
O som do disparo é abafado pelo barulho da chuva.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Prisioneiro [2008]

O som do disparo é abafado pelo barulho da chuva. Gotas de sangue salpicam o azulejo branco. O chiado da TV fora do ar ecoando dentro da noite que promete ser fria pra caralho. O ser é prisioneiro de si mesmo.
Enquanto fazia a barba, olhava seu rosto inchado no espelho. Os olhos vidrados. Um filete de sangue rolou sobre a navalha e escorreu pelo ralo da pia. Ele acendeu um cigarro e ficou observando a fumaça subindo lentamente até o teto. Sua imagem refletida no espelho era apenas uma caricatura abominável. Não se reconhecia mais, nem sabia mais o que fazer.
Sua mão já não parecia mais ser sua; - "Apenas a carne insípida se projetando e palpitando no abandono." - A chama do cigarro brilhava vagamente entre seus dedos que pareciam tentáculos de um verme gordo e quente, desprovido de personalidade, dissociado de seu passado. Num ímpeto, ele olha para a mão e vê uma espécie de crustáceo, - a impressão é tão intolerável que ele a rasga com a navalha. O burburinho infernal impede o mundo de ouvir seu grito.
Som de tiros lá fora. Sua máquina de escrever rasga a madrugada como uma metralhadora. Os carros varrendo as ruas de um lado à outro, cachorros latindo solitários nos becos, o bêbado cruzando trôpego as latas de lixo e bocas de fumo. Os ratos saem à noite para garantir a sobrevivência, e um pouco de diversão, quem sabe?... Agora é tarde demais, ele levou ao extremo sua incapacidade de viver.
A náusea de uma existência indigesta. Ele sabe que pode morrer sem causar um colapso na estrutura social, nem abalar o sistema financeiro, o ecossistema, a produção e venda de produtos derivados do petróleo ou qualquer porra que se faça para matar o tempo enquanto a vida vai nos matando pouco à pouco, com o lento veneno do cotidiano em nossas veias. Quem se importa? Ele só vai engrossar a lista dos obtuários. Os legistas estão entediados. A xícara de café morno esquecida ao lado do cadáver.
Ele está parado em frente ao espelho, contemplando suas olheiras profundas. A mão esquerda enrolada em ataduras. Então ele mete o cano da arma na boca e aperta o gatilho, decorando a parede com sangue e massa encefálica. O ser é prisioneiro de si mesmo.

O Homem Errado [2007]

Augusto escolheu a última porta do reservado e entrou.O banheiro estava vazio. Ele tirou um pacotinho do bolso, abriu e despejou o pó branco entre o polegar e o indicador, aspirou a coca e levantou a cabeça em direção ao teto. Seus olhos ficaram anuveados por um momento, mas logo recuperam a cor - vermelha das veias estriadas de sangue - quando ouviu o baque surdo da porta sendo escancarada violentamente. Escutou passos. Botas pesadas patinando na lama fétida misturada com urina. Um instante suspenso no ar. Augusto sobe em cima das bordas da privada e fica encarando a porta imunda do seu cubículo, esperando. Lá fora fazia uns onze graus, mas ele estava suando como um porco no espeto. Prendeu a respiração e permaneceu tão imóvel quanto uma estátua de bronze sendo devorada pela ferrugem. Uma torneira pingava do outro lado do banheiro.
Ouviu-se vozes:
- Você sabe como ele é ?
- Nunca vi o cara.
- Tem certeza que ele tá aqui dentro ?
- Ele acabou de entrar no banheiro.
As vozes se calaram. Augusto sentia cãimbra nas pernas, quase escorregando.O vaso estava a ponto de rachar.
De repente um som muito parecido com um peido foi ouvido, vindo do cagador ao lado da cabine onde estava Augusto, e seguido de uma quietude ensurdecedora.
O silêncio foi cortado. Uma porta foi arrombada e o estampido de sete tiros ecoou pelo banheiro. Os homens foram embora sem fazer barulho. O sangue escorria pela privada e se misturava com a água preta do piso.
Augusto sufocou o grito vendo o sangue inundar a divisória do seu cubículo, perdeu as forças e abandonou o corpo à ação da gravidade. Seu pé direito escorregou na louça molhada e afundou na merda que flutuava na água do vaso.

O Matador [2006]


Ele vem caminhando lentamente entre os olhares fulminantes e muros pixados. Para, puxa do bolso da camisa um cigarro que enfia entre os dentes, no canto esquerdo da boca, e o acende. Volta seu olhar para o nada, sabe que está sendo notado, talvez por isso deixa escapar um sorriso irônico.
Não importa onde ele estiver; numa rua iluminada no centro da cidade ou num beco sujo e escuro do subúrbio, é sempre assim. As pessoas o olham como se fosse a escória da sociedade, e é isso que ele realmente é, orgulha-se disso. Não se mete com a corja estúpida e ignorante que o julga com olhos cheios de terror e medo... e inveja talvez. Desconfio que inveja e hipocrisia andam de mãos dadas.
O fato dele caminhar nas ruas à noite só aumenta sua aura de mistério, não se expor além do nescessário é mais um charme. Um anti-herói com seus olhos nublados e opacos; obviamente funcionam melhor à luz da lua, ou sob o neon vermelho das espeluncas que servem whisky barato. Já sua voz rouca e grave funciona melhor na penumbra, seja na cama de uma prostituta viciada ou ameaçando um cretino qualquer com sua nove milímetros, que carrega na lateral do seu cinto.
Como num filme noir dos anos trinta ou quarenta, a madrugada é a hora perfeita para ele fazer o seu show, onde é o ator e também, quase sempre, a platéia; quando não há testemunhas. - Mortos são coadjuvantes.
Ele sabe como agir, afinal é só mais uma noite como outra qualquer, já o fez inúmeras vezes, só rotina... Por isso permanece frio, impassível. Tira seu frasco de whisky do bolso da jaqueta de couro e engole todo o conteúdo de uma vez só. Mais um cigarro mata-ratos. Saca sua arma e pensa como tem sido os últimos longos anos de sua vida. Essa é sua última missão, nada mais importa... BANG!
O barulho do corpo caindo na calçada, o sangue escorrendo pela sargeta, a arma abandonada pela mão que puxou o gatilho, e assim nasce mais uma rosa negra no inferno.