quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Homem Errado [2007]

Augusto escolheu a última porta do reservado e entrou.O banheiro estava vazio. Ele tirou um pacotinho do bolso, abriu e despejou o pó branco entre o polegar e o indicador, aspirou a coca e levantou a cabeça em direção ao teto. Seus olhos ficaram anuveados por um momento, mas logo recuperam a cor - vermelha das veias estriadas de sangue - quando ouviu o baque surdo da porta sendo escancarada violentamente. Escutou passos. Botas pesadas patinando na lama fétida misturada com urina. Um instante suspenso no ar. Augusto sobe em cima das bordas da privada e fica encarando a porta imunda do seu cubículo, esperando. Lá fora fazia uns onze graus, mas ele estava suando como um porco no espeto. Prendeu a respiração e permaneceu tão imóvel quanto uma estátua de bronze sendo devorada pela ferrugem. Uma torneira pingava do outro lado do banheiro.
Ouviu-se vozes:
- Você sabe como ele é ?
- Nunca vi o cara.
- Tem certeza que ele tá aqui dentro ?
- Ele acabou de entrar no banheiro.
As vozes se calaram. Augusto sentia cãimbra nas pernas, quase escorregando.O vaso estava a ponto de rachar.
De repente um som muito parecido com um peido foi ouvido, vindo do cagador ao lado da cabine onde estava Augusto, e seguido de uma quietude ensurdecedora.
O silêncio foi cortado. Uma porta foi arrombada e o estampido de sete tiros ecoou pelo banheiro. Os homens foram embora sem fazer barulho. O sangue escorria pela privada e se misturava com a água preta do piso.
Augusto sufocou o grito vendo o sangue inundar a divisória do seu cubículo, perdeu as forças e abandonou o corpo à ação da gravidade. Seu pé direito escorregou na louça molhada e afundou na merda que flutuava na água do vaso.

0 comentários: