quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Prisioneiro [2008]

O som do disparo é abafado pelo barulho da chuva. Gotas de sangue salpicam o azulejo branco. O chiado da TV fora do ar ecoando dentro da noite que promete ser fria pra caralho. O ser é prisioneiro de si mesmo.
Enquanto fazia a barba, olhava seu rosto inchado no espelho. Os olhos vidrados. Um filete de sangue rolou sobre a navalha e escorreu pelo ralo da pia. Ele acendeu um cigarro e ficou observando a fumaça subindo lentamente até o teto. Sua imagem refletida no espelho era apenas uma caricatura abominável. Não se reconhecia mais, nem sabia mais o que fazer.
Sua mão já não parecia mais ser sua; - "Apenas a carne insípida se projetando e palpitando no abandono." - A chama do cigarro brilhava vagamente entre seus dedos que pareciam tentáculos de um verme gordo e quente, desprovido de personalidade, dissociado de seu passado. Num ímpeto, ele olha para a mão e vê uma espécie de crustáceo, - a impressão é tão intolerável que ele a rasga com a navalha. O burburinho infernal impede o mundo de ouvir seu grito.
Som de tiros lá fora. Sua máquina de escrever rasga a madrugada como uma metralhadora. Os carros varrendo as ruas de um lado à outro, cachorros latindo solitários nos becos, o bêbado cruzando trôpego as latas de lixo e bocas de fumo. Os ratos saem à noite para garantir a sobrevivência, e um pouco de diversão, quem sabe?... Agora é tarde demais, ele levou ao extremo sua incapacidade de viver.
A náusea de uma existência indigesta. Ele sabe que pode morrer sem causar um colapso na estrutura social, nem abalar o sistema financeiro, o ecossistema, a produção e venda de produtos derivados do petróleo ou qualquer porra que se faça para matar o tempo enquanto a vida vai nos matando pouco à pouco, com o lento veneno do cotidiano em nossas veias. Quem se importa? Ele só vai engrossar a lista dos obtuários. Os legistas estão entediados. A xícara de café morno esquecida ao lado do cadáver.
Ele está parado em frente ao espelho, contemplando suas olheiras profundas. A mão esquerda enrolada em ataduras. Então ele mete o cano da arma na boca e aperta o gatilho, decorando a parede com sangue e massa encefálica. O ser é prisioneiro de si mesmo.

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