Ele olhou para baixo e viu suas tripas espalhadas pelo chão. Muita merda e sangue podre. As moscas sobrevoavam seu baixo ventre como corvos na carniça. Num último segundo de consciência, tomou fôlego e declarou:
- Puta que pariu...
O outro se escorava na parede tentando chegar à rua. A ferramenta em sua mão pesava tanto quanto a culpa em suas costas. Um rastro de sangue pago em espécie. Agora já era. Pressionou as costas pesadas contra um latão de lixo e foi escorregando devagar até perceber que estava sentado sobre sua bunda. Seu olho direito havia saltado da órbita como pão na torradeira.
O advogado segurava a mão do despachante por sobre a mesa.
- Então tá tudo certo. Pegamos o cara. - Diz o despachante.
- Não quero saber dos detalhes. - Informa o advogado.
- Você é um canalha...
- O que eu quero saber é, bem, é... tem certeza de que é o homem certo?
- Porra! Fizeram o cara agora mermo. Morreu na privada - hehe. BANG! Se fodeu. Já era.
Quando o despachante bateu a porta do escritório, o advogado bufou destampando o blended 12 anos:
- Cara escroto.
O homem permaneceu ali, no beco, encostado no latão, lutando contra os tremores para acender o cigarro. Seu parceiro estava estraçalhado à alguns metros e logo os cachorros sentiriam o cheiro do jantar servido.
Havia algumas janelas iluminadas, mas no beco a escuridão era total.
Ele agradeceu quando a chuva aliviou a dor dos ferimentos. Teria que ligar para o chefe e contar a merda que deu... - Foda-se, cansado demais, fodido completamente. Pro inferno com o despachante, e o dinheiro à casa do caralho.
A água caía fina e gelava os ossos. Começou a cantarolar um refrão que vazava de uma das janelas do beco: SSShhhhhh...
Dentro do apartamento a Tv fora do ar não abafava o ruído da máquina de escrever. Uma garrafa de whisky nacional e a metade mastigada de um charuto ordinário ornamentavam a mesa. O escritor resolveu dar uma cagada; entrou no banheiro e se demorou em frente ao espelho - pensando em fazer a barba. Tinha deixado seus papéis espalhados sobre a mesa:
"Ele vem caminhando lentamente entre os olhares fulminantes e muros pixados. Para, puxa do bolso da camisa um cigarro que enfia entre os dentes, no canto esquerdo da boca, e o acende. Volta seu olhar para o nada, sabe que está sendo notado, talvez por isso deixa escapar um sorriso irônico..."
O som do disparo é abafado pelo barulho da chuva.

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