domingo, 15 de fevereiro de 2009

In Articulo Mortis [2009]

O Advogado está sentado com sua última dose de whisky. Ninguém retorna seus telefonemas. Estão todos convenientemente incomunicáveis. Ficar isolado mexe com a mente.
Lá fora, a imprensa já montou seu circo - como um bando de parasitas esperando um espetáculo. A pasta que aquele jornalista cretino recebeu das mãos de um certo detetive de merda, ganhou as manchetes. O advogado se tornou mais um bode espiatório.
As luzes estão apagadas. O horário de expediente já acabou à muito. Ele observa, pelas frestas da persiana, a movimentação em frente ao seu prédio, e vê quando o comissário de polícia resolve subir com um mandado nas mãos.
O advogado pisa com prazer os estilhaços do seu copo vazio. Afunda o cigarro num cinzeiro abarrotado que transborda em sua mesa. Tira uma chave da caixa de charutos e abre a última gaveta de sua escrivaninha.
Ele ouve a voz lamurienta da sua secretária, por trás da porta:
- É sua mulher no telefone, Dr. Ela está chorando...
- Me deixem em paz todos vocês... - Responde cansado.
"Então é isso." - ele pensa enquanto ouve o estardalhaço que a polícia faz ao subir as escadas que levam à sua porta. Com a arma na mão ele se reclina em sua cadeira, em meio à penumbra do seu escritório.
- Abra, Senhor! Não tem pra oinde ir...
Ele tem sim.
BANG!

Hellblazer - Poder Infernal

[Mike Carey]

O inferno na terra, Beroul disse.
O que já era bem óbvio.
O inferno de verdade é um maldito fosso de cobras, com um milhão de demônios correndo atrás da fama.
Então, um dia alguém diz: vamos abrir uma filial. Vamos fazer um programa de intervenção nas cidades dos homens.
E todos eles correm aos trancos e barrancos pra maldita porta.
Sob certos aspectos, é bem difícil, sim, quer dizer, existe toda uma infra-estrutura que precisa ser erguida.
Mas é tipo um lance inicial, como comprar ações da Kodak à cinco centavos cada.
Os inferninhos começam a se espalhar por todos os lados como bocas de fumo. Uma organização descentralizada. Um negócio do tipo franquia.
O céu é o limite pro sujeito que chegar primeiro.
Mas em seguida, você tem que eliminar a concorrência.
...
Pensei que me sentiria melhor nas ruas.
Mas essas não são as minhas ruas. Elas não se abrem do mesmo jeito.
Mas existe uma trilha, e eu a acompanho, para fora do vale, a leste de los Angeles, até Monterey Park.
Fico feliz boa parte do tempo com a luz do dia. Isso é novidade pra mim.
A cidade cheira à gasolina e incenso de igreja. Soluços e lamentos de si mesma ecoam com as sirenes.
A coisa olha por cima do meu ombro enquanto ando.
Caralho! Como eu odeio isso!
...
As próximas horas fundem-se num lodo de tons castanhos.
Eu volto andando pela sepulveda, passando por mais ou menos uma centena de bares e casas de strip-tease.
Acabo bebendo em um deles. Não sei quanto tempo.
Depois estou jogando bilhar e trocando piadas obscenas com alguns sujeitos do norte de Hollywood. Sou o único rosto branco, mas, já que estou perdendo, ninguém parece se importar.
Então digo pra um dos membros da gangue que ele é um trapaceiro filho da puta. Ele só olha pra mim. Estou tão obviamente à beira do abismo que ele não tem certeza se vale a pena me dar uma surra.
Por mim tudo bem. Eu dou o primeiro soco. Que é o único que consigo lembrar.
Nada quebrado.
Devem ter gostado do meu sotaque.
Então, volto mancando pra rua e vejo a coisa sentada bem alí, sob a luz de um poste, tremulando como uma piscadela insolente.
...
Não passa da porra de um delírio inútil.
Você se cerca de outras pessoas para que a noite não pareça tão escura.
Abafa o som do vento com discussões sobre de quem é a vez de lavar os pratos.
É melhor não se iludir.
É melhor não entregar quaisquer reféns ao destino.
No final, só depende de você mesmo.
Sempre.
Em que porra de outro lugar você desejaria estar?