Enquanto meto, ela geme de quatro em cima da cama. O som da nossa carne se batendo estala dentro desse quarto vagabundo; seus peitos balançam no mesmo rítimo. Eu estou de pé, com os joelhos apoiados na borda da cama, observando minha mulher - pelada - em cima dos lençóis sujos, oferecer pra mim o corpo mais lindo que já vi em toda minha vida, enquanto ela empina o quadril contra o meu pau duro.
Gosto de agarra-la pela cintura e puxar seu cabelo até trazer sua cabeça inclinada perto da minha boca e sussurrar no seu ouvido: "te amo, gostosa!". Também gosto de dar umas palmadas ardidas naquela bunda e ouvir ela gritar com força. As vezes tiro o pau e bato com ele na sua bunda e no seu cuzinho. Depois enfio com tudo em sua boceta molhadinha, numa estocada só. Então ela goza e se joga na cama com um abandono egoísta, cheia de tesão.
Quando acordo, não posso dizer se isso tudo foi real ou só mais um sonho. Ligo a t.v. mas não assisto. Acendo um cigarro e fico olhando a fumaça subir pelo teto. Olho para o telefone - ele olha para mim.
No banheiro, deixo a água quente escorrer sobre meu suor e as cicatrizes. Tento não pensar em nada. As mulheres sempre me pareceram como apenas mais um emprego. Você passa um tempo afundado nele, enquanto sua alma é sugada e sua pele talhada de cicatrizes, depois é chutado para fora, sem nenhum aviso prévio. E você fica com uma puta sensação de vazio. Então eu abro a geladeira e pego mais uma cerveja.
Ainda não são dez horas. Muito cedo para se fazer qualquer coisa. A louça suja do jantar de anteontem ainda está na pia. A correspondência se amontoando de baixo da porta; a conta do telefone, do cartão de crédito... A chaleira está apitando em cima do fogão. Tomo meu remédio com um café amargo quando uma brisa gelada invade meu quarto. É aí que os sonhos se fundem com a realidade - e eu estou com ela outra vez em meus braços. Só mais uma vez... a última...
Agarro-a forte pela bunda. Levanto seu corpo com as duas mãos e a jogo contra a parede. Ela me envolve com suas pernas e crava as unhas nas minhas costas, enquanto morde forte meu lábio, meu pescoço. Fica sempre um gosto de sangue na boca.
É diferente cada vez que eu penetro sua boceta quente. Sinto suas pregas engolirem a cabeça do meu pau. Uma sensação que começa lá na medula e vai percorrendo o meu corpo até eu esporrar todo o meu gozo dentro do seu útero. Outra vez não sei dizer se tudo isso é uma lembrança ou a porra da minha imaginação.
***
Maldito quarto vazio. Maldito telefone. Maldita falta de dinheiro. O que são essas vozes na minha cabeça? Esses vultos nos meus sonhos? Minha camisa esburacada pela brasa do cigarro, com manchas pretas de borra de café. As meias fedendo à dias, ou meses? As baratas são minha única companhia nesse quarto. Elas caminham entre as caixas de pizza e latas vazias de cerveja em baixo da cama. Escuto elas roendo suas cascas a noite inteira. Deve ser uma vida agradável; circular por aí e esperar que a comida caia do céu de vez em quando. Sem ter que trabalhar. Sem ter que vender suas almas ao diabo. Invejo as baratas.
Então o telefone toca. Ele realmente toca? Será que eu ouvi direito? É mesmo a voz doce e sensual dela do outro lado da linha? (conheço muito bem sua voz, como se fosse a minha própria voz). Quer se encontrar comigo. Hoje? Certo. Eu te amo, gostosa. Vou estar esperando.
A vida pode ser bruta as vezes - se você viver de punhos cerrados. Relaxe, cara. Nem tudo precisa ser disputado no dente.
A campahinha toca. Deixo o blues rolando baixinho. Espremo uma espinha em frente ao espelho. Enfio dois chicletes de menta na boca. Esfrego creme dental na cabeça do pinto. Finalmente ela voltou pra mim. Mas quando abro a porta, não consigo me lembrar de como é sua fisionomia. Não tenho certeza se é ela que está alí, vestida de branco, parada em minha porta, com um sorriso nervoso.
- Amor, é você? - Pergunto.
- Sim, você me chamou...
Internação voluntário. Foi o que me disseram depois. Depois dela ter me aplicado o Demerol, dois caras de branco me amarraram numa maca e me carregaram com eles escada a baixo. Soube disso dias depois, nesse quarto fechado com uma campahinha (agora tenho até serviço de quarto). Mas mesmo ouvindo da boca das enfermeiras, não posso ter certeza do que aconteceu de verdade. Tudo passou num borrão. Minha vida passou num borrão. Onde está a mulher que eu amo? Nesse momento me dou conta de que nem ao menos sei o seu nome. Não sei se ela existe realmente. E se tudo isso foi coisa da minha cabeça? Eu estou confuso demais para raciocinar. As drogas derreteram meu cérebro. Talvez eu nunca tenha vivido fora deste quarto.
No outro lado da cidade, num apartamento recém desocupado, o telefone toca insistentemente. O guarda-roupa está vazio. A pia está limpa. O senhorio deu um jeito em toda a bagunça e sujeira do seu último inquilino. Um maluco idiota. A cidade está cheia deles. Homens e mulheres, solitários. Falando sozinhos, em quartos pequenos. Rindo sozinhos, chorando sozinhos, fodendo sozinhos. Vivendo uma vida de bosta. Sem dinheiro, sem esperança. Sem amor. O telefone continua tocando. Você não está ouvindo? A secretária eletrônica atende com o seguinte recado: " Oi, eu não estou aqui porque estou louco. Deixe seu recado, mas não vou retornar." Só que depois do sinal, uma voz doce e sexy fala ao telefone:
- Amor, você tá aí? Me atende...
Mas pode ser engano.
domingo, 25 de julho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Prólogo
Enquanto escrevo, uma forte chuva inunda toda a cidade e eu vejo as gotas grossas caindo sobre os telhados, ofuscando a luz amarelada das lâmpadas de mercúrio. Quando chove assim, parece que a cidade está sendo lavada de seus pecados, mas só parece. Da janela do meu quarto vejo a chuva desabando sobre a cidade como lágrimas vindas do céu, mas nem tudo é o que parece - deus não perderia tempo chorando por ninguém.
Um sonho dentro de um sonho [2009]
"A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada." MacBeth, 5º Ato, Cena V - W. Shakespeare
Você vê o seu quarto. Está tudo lá, mas você não sabe se é real. O abajur está lá, e o telefone, a carteira e os frascos com todos os seus comprimidos. A garrafa de conhaque pela metade e meio cigarro queimando no criado. E o relógio marca onze e quarenta e sete.
Tudo está embaçado e fora de foco. Você esfrega os olhos mas a névoa não sai e você começa a tremer. No chão, do lado do seu sapato está o termômetro quebrado e o mercúrio escorre sobre suas meias. Só que é mercúrio demais, inundando o carpete.
Você está tremendo e tenta olhar para a porta no escuro mas a luz só alcança as pontas dos seus pés. E você imagina que há um vulto na porta e volta a babar no travesseiro. Suar e babar, encharcando os lençóis.
Você pode ouvir tudo, e arregala os olhos para a porta. Não tem ninguém lá, não é? Mas você sente. A respiração pesada da coisa, ou a sua. E você acorda encarando a porta trancada.
Foi só um sonho.
E o seu quarto está da mesma forma como você deixou antes de apagar - ou antes de brigar com a namorada. Quer dizer, tudo está no mesmo lugar. O abajur continua lá e o telefone e a carteira e os comprimidos. O conhaque e o cigarro carburando sobre o móvel e despejando as cinzas na poça de mercúrio sobre o carpete. Isso também continua lá. E o relógio marcando onze e quarenta e sete.
E o vulto na porta.
Você só enxerga até a guarda da sua cama, mas você sente. E treme. Você sente a aproximação e tenta gritar mas na verdade tudo nada em bosta mole porque não sai som nenhum. Azar garoto. Você bóia numa pesada cortina de silêncio. O vulto e um brilho, em sua direção: tshiimm...
Você acorda. Foi só um sonho.
É um quarto de hospital e há flores na cabeceira. Flores e uma caixa de charutos com um bilhete. Você tenta relaxar, peida e coça a orelha e tenta não olhar para seus pés, ou na direção deles.
As enfermeiras estão correndo e você imagina cada uma delas fazendo um lap dance em você, e depois esquece. Não tem sentido você pensar numa coisa dessas. Algumas sorriem pra você como se você fosse a merda de um velho desdentado incapaz de manter uma ereção à base de medicamentos.
Isso se chama condescendência.
Nenhuma mulher vai se interessar pelo seu carro, ou pelo seu peito cabeludo e musculoso, ou então pela sua tatuagem no bíceps, ou pelo seu brilhante vocabulário. Muito azar, garoto.
Só idiotas são escravizados pelo tempo e espaço.
É dia - e sua cadeira está ali com seu casaco. O telefone, o maço de cigarro, o termômetro espatifado no chão, o conhaque, as pílulas, o relógio, uma caixa de charutos com um bilhete e você levanta. Ou tenta.
É uma dor aguda no seu baixo ventre. Você tenta por os pés no chão do seu quarto e sentir o mercúrio coagular espesso e pegajoso como... sangue, porra. E atira longe o edredom ensopado, e o lençol e sua cueca nadam num liquido vermelho viscoso.
Puta que pariu.
Você pega a caixa de charutos e acende um. Lê o bilhete: "Espero que me perdoe. Amor. - M." Você se sente bem. Você se sente bem e até chora, um pouco, não muito, porra. Você vê um futuro e imagina a vida ao lado dela. Totalmente ascética, asséptica, anti-séptica, de puro amor. Idealizado. Ela sempre será sua e você poderá amá-la e não haverá a mácula nodosa da carne entre vocês. E você em lágrimas esquece da dor e da febre e se concentra na sua nova vida; limpa, pura, livre de pecado.
Então você pensa. Larga a caixa e pega o telefone. Cada minuto pode significar o fim, o desastre total, o apocalipse. Você procura na agenda dela um número mas antes de discar é o seu fone que toca.
"O que você fez comigo, sua puta!" - Você berra em prantos quando ouve a voz dela.
"Foi sua culpa, filho da puta degenerado! Sua e dessas piranhas da rua!"
"Que tipo de merda você tá inventando, caralho?"
"Espero que você se foda muito na sua vida!"
Puta que pariu, puta que pariu...
Quando ela bate o fone você disca um número da agenda dela e desaba estarrecido no travesseiro. Acorda e alí está o seu quarto. E alí está o telefone, e o abajur, e a meia garrafa de conhaque e a pequena caixa de charuto. Tem um bilhete nela e você já sabe o que é: "Este é um souvenir do nosso relacionamento e um instrumento da nossa separação. Não espero que você me perdoe. - M."
Você quer gritar mas é impossível. Você pega a caixa de madeira, feita sob medida para aquele seu charuto especial, aquele que você reserva para ocasiões especiais como depois de uma trepada com sua namorada, ou com qualquer outra. Você segura aquela porra nas mãos e dentro há um objeto cilíndrico de aproximadamente quinze centímetros e mais uma vez tenta gritar, mesmo assim não há som nenhum.
E você acorda. Acorda e disca um número da agenda dela. Você sabe o que não quer ouvir, mas vai ouvir. Dos quarenta minutos que o médico te prometeu, todos você passa dopado de comprimidos e conhaque e febre e medo.
"Doutor, ela me mutilou! A cadela decepou o meu pau!"
"Não."
"Não o quê, porra?"
"Ele ainda está aí, mas... não por muito tempo."
"Mas que caralho..."
"Você tem uma doença degenerativa de origem venérea. Seu pênis terá de ser amputado ou as células doentes se espalharão por todo seu corpo. No orifício urinário nós - instalaremos - uma pequena mangueira ligada à uma bolsa que recolherá sua urina... sugiro sua remoção para o centro cirúrgico imediatamente!"
"Espera Doutor, me deixa sozinho por uns minutos." - Você suplica enquanto pega a caixinha de madeira sobre o criado e abre. Dentro tem um havana puro. No celofane está escrito: "Com Amor. - M."
Você aproveita para relaxar e fumar o charuto. Aproveita agora que não vai mais poder aproveitar muita coisa mesmo e aproveita para dizer adeus à sua antiga vida. A cada baforada as cinzas caem e grudam no lençol pegajoso. Os comprimidos, o conhaque, a febre. É, parece que essas coisas anestesiaram você. Você apaga.
Ela está nesse quarto que parece um hospital clandestino e é o seu quarto. Ela está deitada com você, na sua cama e te cobrindo de beijos e carinhos. Você está feliz, não está? Feliz como um retardado.
Uma enfermeira peituda vem te dar uma injeção e sorrindo, ela passa a mão sobre sua testa suada.
Mas você não precisa de condescendência.
O médico entra no seu quarto abanando a fumaça do charuto e dizendo:
"Como vai o meu paciente?"
E você está ótimo, claro que tá. Mesmo depois da operação. Você recuperou a cor e as olheiras sumiram, está mais gordo mas não inchado como antes, não. Até a sua namorada está bem. Ela está limpa. Por algum motivo você não a contaminou. Mas você nunca acreditou naquela história, acreditou?
Você abraça feliz sua namorada que sorri satisfeita para o médico que tem o olho vidrado por causa de todas as pílulas e o sono e o sexo medíocre, e ele retribui beliscando a bunda da enfermeira peituda.
Você vê o seu quarto. Está tudo lá, mas você não sabe se é real. O abajur está lá, e o telefone, a carteira e os frascos com todos os seus comprimidos. A garrafa de conhaque pela metade e meio cigarro queimando no criado. E o relógio marca onze e quarenta e sete.
Tudo está embaçado e fora de foco. Você esfrega os olhos mas a névoa não sai e você começa a tremer. No chão, do lado do seu sapato está o termômetro quebrado e o mercúrio escorre sobre suas meias. Só que é mercúrio demais, inundando o carpete.
Você está tremendo e tenta olhar para a porta no escuro mas a luz só alcança as pontas dos seus pés. E você imagina que há um vulto na porta e volta a babar no travesseiro. Suar e babar, encharcando os lençóis.
Você pode ouvir tudo, e arregala os olhos para a porta. Não tem ninguém lá, não é? Mas você sente. A respiração pesada da coisa, ou a sua. E você acorda encarando a porta trancada.
Foi só um sonho.
E o seu quarto está da mesma forma como você deixou antes de apagar - ou antes de brigar com a namorada. Quer dizer, tudo está no mesmo lugar. O abajur continua lá e o telefone e a carteira e os comprimidos. O conhaque e o cigarro carburando sobre o móvel e despejando as cinzas na poça de mercúrio sobre o carpete. Isso também continua lá. E o relógio marcando onze e quarenta e sete.
E o vulto na porta.
Você só enxerga até a guarda da sua cama, mas você sente. E treme. Você sente a aproximação e tenta gritar mas na verdade tudo nada em bosta mole porque não sai som nenhum. Azar garoto. Você bóia numa pesada cortina de silêncio. O vulto e um brilho, em sua direção: tshiimm...
Você acorda. Foi só um sonho.
É um quarto de hospital e há flores na cabeceira. Flores e uma caixa de charutos com um bilhete. Você tenta relaxar, peida e coça a orelha e tenta não olhar para seus pés, ou na direção deles.
As enfermeiras estão correndo e você imagina cada uma delas fazendo um lap dance em você, e depois esquece. Não tem sentido você pensar numa coisa dessas. Algumas sorriem pra você como se você fosse a merda de um velho desdentado incapaz de manter uma ereção à base de medicamentos.
Isso se chama condescendência.
Nenhuma mulher vai se interessar pelo seu carro, ou pelo seu peito cabeludo e musculoso, ou então pela sua tatuagem no bíceps, ou pelo seu brilhante vocabulário. Muito azar, garoto.
Só idiotas são escravizados pelo tempo e espaço.
É dia - e sua cadeira está ali com seu casaco. O telefone, o maço de cigarro, o termômetro espatifado no chão, o conhaque, as pílulas, o relógio, uma caixa de charutos com um bilhete e você levanta. Ou tenta.
É uma dor aguda no seu baixo ventre. Você tenta por os pés no chão do seu quarto e sentir o mercúrio coagular espesso e pegajoso como... sangue, porra. E atira longe o edredom ensopado, e o lençol e sua cueca nadam num liquido vermelho viscoso.
Puta que pariu.
Você pega a caixa de charutos e acende um. Lê o bilhete: "Espero que me perdoe. Amor. - M." Você se sente bem. Você se sente bem e até chora, um pouco, não muito, porra. Você vê um futuro e imagina a vida ao lado dela. Totalmente ascética, asséptica, anti-séptica, de puro amor. Idealizado. Ela sempre será sua e você poderá amá-la e não haverá a mácula nodosa da carne entre vocês. E você em lágrimas esquece da dor e da febre e se concentra na sua nova vida; limpa, pura, livre de pecado.
Então você pensa. Larga a caixa e pega o telefone. Cada minuto pode significar o fim, o desastre total, o apocalipse. Você procura na agenda dela um número mas antes de discar é o seu fone que toca.
"O que você fez comigo, sua puta!" - Você berra em prantos quando ouve a voz dela.
"Foi sua culpa, filho da puta degenerado! Sua e dessas piranhas da rua!"
"Que tipo de merda você tá inventando, caralho?"
"Espero que você se foda muito na sua vida!"
Puta que pariu, puta que pariu...
Quando ela bate o fone você disca um número da agenda dela e desaba estarrecido no travesseiro. Acorda e alí está o seu quarto. E alí está o telefone, e o abajur, e a meia garrafa de conhaque e a pequena caixa de charuto. Tem um bilhete nela e você já sabe o que é: "Este é um souvenir do nosso relacionamento e um instrumento da nossa separação. Não espero que você me perdoe. - M."
Você quer gritar mas é impossível. Você pega a caixa de madeira, feita sob medida para aquele seu charuto especial, aquele que você reserva para ocasiões especiais como depois de uma trepada com sua namorada, ou com qualquer outra. Você segura aquela porra nas mãos e dentro há um objeto cilíndrico de aproximadamente quinze centímetros e mais uma vez tenta gritar, mesmo assim não há som nenhum.
E você acorda. Acorda e disca um número da agenda dela. Você sabe o que não quer ouvir, mas vai ouvir. Dos quarenta minutos que o médico te prometeu, todos você passa dopado de comprimidos e conhaque e febre e medo.
"Doutor, ela me mutilou! A cadela decepou o meu pau!"
"Não."
"Não o quê, porra?"
"Ele ainda está aí, mas... não por muito tempo."
"Mas que caralho..."
"Você tem uma doença degenerativa de origem venérea. Seu pênis terá de ser amputado ou as células doentes se espalharão por todo seu corpo. No orifício urinário nós - instalaremos - uma pequena mangueira ligada à uma bolsa que recolherá sua urina... sugiro sua remoção para o centro cirúrgico imediatamente!"
"Espera Doutor, me deixa sozinho por uns minutos." - Você suplica enquanto pega a caixinha de madeira sobre o criado e abre. Dentro tem um havana puro. No celofane está escrito: "Com Amor. - M."
Você aproveita para relaxar e fumar o charuto. Aproveita agora que não vai mais poder aproveitar muita coisa mesmo e aproveita para dizer adeus à sua antiga vida. A cada baforada as cinzas caem e grudam no lençol pegajoso. Os comprimidos, o conhaque, a febre. É, parece que essas coisas anestesiaram você. Você apaga.
Ela está nesse quarto que parece um hospital clandestino e é o seu quarto. Ela está deitada com você, na sua cama e te cobrindo de beijos e carinhos. Você está feliz, não está? Feliz como um retardado.
Uma enfermeira peituda vem te dar uma injeção e sorrindo, ela passa a mão sobre sua testa suada.
Mas você não precisa de condescendência.
O médico entra no seu quarto abanando a fumaça do charuto e dizendo:
"Como vai o meu paciente?"
E você está ótimo, claro que tá. Mesmo depois da operação. Você recuperou a cor e as olheiras sumiram, está mais gordo mas não inchado como antes, não. Até a sua namorada está bem. Ela está limpa. Por algum motivo você não a contaminou. Mas você nunca acreditou naquela história, acreditou?
Você abraça feliz sua namorada que sorri satisfeita para o médico que tem o olho vidrado por causa de todas as pílulas e o sono e o sexo medíocre, e ele retribui beliscando a bunda da enfermeira peituda.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Ereção Calibre .44 [2009]
Meteu um botinaço nas fuças, enfiou o copo pela goela e fez ele mastigar. O ruído produzido pelo atrito do vidro moído entre os dentes de R. era quase balsâmico. O monstro no armário era uma garrafa de Jack Daniel´s e a última vez que ele fodeu uma xota foi há mais de cinco anos.
" Minha vida não tem grandes lances. A música cada vez mais baixa... se esvaindo em urina... Há uma garota do meu lado. Linda. Quer dizer, tão linda quanto eu penso que seja. Tenho alguns trocados no bolso. O que se pode fazer? "
Resposta:
- Pega mais uma cerveja. - Ela diz.
- Tenho uma boa e uma má notícia. Qual você quer ouvir primeiro?
- A má. - Ela responde.
- Estou duro.
- E a boa?
- Estou duro...
[ No apartamento dela. Um filme dublado na Tv. Estamos em um colchão na sala. Pelados. ]
- Tem cigarro?
- Porra, agora?
- Desculpe... [ Sempre fui um otário perdedor, certo? ]
"Preciso mesmo é de um café amargo e um soco na cara. Tá legal, esquece a segunda parte, me serve um café. Sei que você pode fazer isso. Qualquer um pode."
Quando R. tentou falar, não pode; sua boca era uma pasta de gengiva estraçalhada e pedaços de dentes, com a lingua pendendo pelo lábio rasgado. Lustrou a bota e deixou R. capotado, não-falando sozinho, desceu a escada, sumiu no meio da noite. Foi um esporro do caralho, aquilo. Foi mesmo.
Ele entrou num puteiro e escolheu o material. Pediu uma bebida e engoliu o comprimido lembrando a última vez que esteve com uma mulher. Desta vez não, porra. Subiu para o quarto com a vadia. Estava suando nas maõs.
Falhou de novo.
"Como é benzinho, ele não vai cooperar?
Toda vez que isso acontece ele se torna o filho da puta mais cruel do inferno.
"Cala a boca, piranha!" Ele disse pulando da cama com o pau pendurado como uma ratazana morta. Ela tentou correr, ele deu um par de socos nos cornos dela que desabou no chão. Ele amarrou as pernas dela na cama com o cinto. Gritou bem alto: "Vou incendiar seus ovários, boneca!" Ela chorou.
A vida não tem grandes lances. Acendeu um charuto saboreando o momento, cheirando o medo da presa. Aproximou-se dela abrindo suas pernas bruscamente e esfregou a chama do charuto boceta adentro. Era um filho da puta cruel, ouvindo os urros histéricos que enchiam o quarto à prova de som. Era um cuzão mas pela primeira vez sentiu compaixão. Estava amolecendo como tira como já havia amolecido como amante. Cheio de remorso enfiou o cano da pistola na vagina da puta e sussurrou no seu ouvido, meio sem convicção: "É disso que você gosta, boneca!" E apertou o gatilho. Desceu a escada, tomou uma bebida, pagou, saiu.
R. acordou em um quarto alugado. Procurou sua ferramenta debaixo do colchão. Cuspiu na pia nacos de carne sangrenta e pedaços de vidro. Enxaguou a boca, desceu a escada e saiu pensando que a vida não é um grande lance merda nenhum. Justiça é o caralho, o negócio é vingança. A vingança mais completa possível. Agora ele é o predador. Não sente dor, nem sente medo - só sente ódio. Ácido correndo nas veias. Queimando por dentro... salivando. "Sou uma dinamite."
O cara saindo apressado do puteiro, cheio de testemunhas.
Foda-se
" Minha vida não tem grandes lances. A música cada vez mais baixa... se esvaindo em urina... Há uma garota do meu lado. Linda. Quer dizer, tão linda quanto eu penso que seja. Tenho alguns trocados no bolso. O que se pode fazer? "
Resposta:
- Pega mais uma cerveja. - Ela diz.
- Tenho uma boa e uma má notícia. Qual você quer ouvir primeiro?
- A má. - Ela responde.
- Estou duro.
- E a boa?
- Estou duro...
[ No apartamento dela. Um filme dublado na Tv. Estamos em um colchão na sala. Pelados. ]
- Tem cigarro?
- Porra, agora?
- Desculpe... [ Sempre fui um otário perdedor, certo? ]
"Preciso mesmo é de um café amargo e um soco na cara. Tá legal, esquece a segunda parte, me serve um café. Sei que você pode fazer isso. Qualquer um pode."
Quando R. tentou falar, não pode; sua boca era uma pasta de gengiva estraçalhada e pedaços de dentes, com a lingua pendendo pelo lábio rasgado. Lustrou a bota e deixou R. capotado, não-falando sozinho, desceu a escada, sumiu no meio da noite. Foi um esporro do caralho, aquilo. Foi mesmo.
Ele entrou num puteiro e escolheu o material. Pediu uma bebida e engoliu o comprimido lembrando a última vez que esteve com uma mulher. Desta vez não, porra. Subiu para o quarto com a vadia. Estava suando nas maõs.
Falhou de novo.
"Como é benzinho, ele não vai cooperar?
Toda vez que isso acontece ele se torna o filho da puta mais cruel do inferno.
"Cala a boca, piranha!" Ele disse pulando da cama com o pau pendurado como uma ratazana morta. Ela tentou correr, ele deu um par de socos nos cornos dela que desabou no chão. Ele amarrou as pernas dela na cama com o cinto. Gritou bem alto: "Vou incendiar seus ovários, boneca!" Ela chorou.
A vida não tem grandes lances. Acendeu um charuto saboreando o momento, cheirando o medo da presa. Aproximou-se dela abrindo suas pernas bruscamente e esfregou a chama do charuto boceta adentro. Era um filho da puta cruel, ouvindo os urros histéricos que enchiam o quarto à prova de som. Era um cuzão mas pela primeira vez sentiu compaixão. Estava amolecendo como tira como já havia amolecido como amante. Cheio de remorso enfiou o cano da pistola na vagina da puta e sussurrou no seu ouvido, meio sem convicção: "É disso que você gosta, boneca!" E apertou o gatilho. Desceu a escada, tomou uma bebida, pagou, saiu.
R. acordou em um quarto alugado. Procurou sua ferramenta debaixo do colchão. Cuspiu na pia nacos de carne sangrenta e pedaços de vidro. Enxaguou a boca, desceu a escada e saiu pensando que a vida não é um grande lance merda nenhum. Justiça é o caralho, o negócio é vingança. A vingança mais completa possível. Agora ele é o predador. Não sente dor, nem sente medo - só sente ódio. Ácido correndo nas veias. Queimando por dentro... salivando. "Sou uma dinamite."
O cara saindo apressado do puteiro, cheio de testemunhas.
Foda-se
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