Meteu um botinaço nas fuças, enfiou o copo pela goela e fez ele mastigar. O ruído produzido pelo atrito do vidro moído entre os dentes de R. era quase balsâmico. O monstro no armário era uma garrafa de Jack Daniel´s e a última vez que ele fodeu uma xota foi há mais de cinco anos.
" Minha vida não tem grandes lances. A música cada vez mais baixa... se esvaindo em urina... Há uma garota do meu lado. Linda. Quer dizer, tão linda quanto eu penso que seja. Tenho alguns trocados no bolso. O que se pode fazer? "
Resposta:
- Pega mais uma cerveja. - Ela diz.
- Tenho uma boa e uma má notícia. Qual você quer ouvir primeiro?
- A má. - Ela responde.
- Estou duro.
- E a boa?
- Estou duro...
[ No apartamento dela. Um filme dublado na Tv. Estamos em um colchão na sala. Pelados. ]
- Tem cigarro?
- Porra, agora?
- Desculpe... [ Sempre fui um otário perdedor, certo? ]
"Preciso mesmo é de um café amargo e um soco na cara. Tá legal, esquece a segunda parte, me serve um café. Sei que você pode fazer isso. Qualquer um pode."
Quando R. tentou falar, não pode; sua boca era uma pasta de gengiva estraçalhada e pedaços de dentes, com a lingua pendendo pelo lábio rasgado. Lustrou a bota e deixou R. capotado, não-falando sozinho, desceu a escada, sumiu no meio da noite. Foi um esporro do caralho, aquilo. Foi mesmo.
Ele entrou num puteiro e escolheu o material. Pediu uma bebida e engoliu o comprimido lembrando a última vez que esteve com uma mulher. Desta vez não, porra. Subiu para o quarto com a vadia. Estava suando nas maõs.
Falhou de novo.
"Como é benzinho, ele não vai cooperar?
Toda vez que isso acontece ele se torna o filho da puta mais cruel do inferno.
"Cala a boca, piranha!" Ele disse pulando da cama com o pau pendurado como uma ratazana morta. Ela tentou correr, ele deu um par de socos nos cornos dela que desabou no chão. Ele amarrou as pernas dela na cama com o cinto. Gritou bem alto: "Vou incendiar seus ovários, boneca!" Ela chorou.
A vida não tem grandes lances. Acendeu um charuto saboreando o momento, cheirando o medo da presa. Aproximou-se dela abrindo suas pernas bruscamente e esfregou a chama do charuto boceta adentro. Era um filho da puta cruel, ouvindo os urros histéricos que enchiam o quarto à prova de som. Era um cuzão mas pela primeira vez sentiu compaixão. Estava amolecendo como tira como já havia amolecido como amante. Cheio de remorso enfiou o cano da pistola na vagina da puta e sussurrou no seu ouvido, meio sem convicção: "É disso que você gosta, boneca!" E apertou o gatilho. Desceu a escada, tomou uma bebida, pagou, saiu.
R. acordou em um quarto alugado. Procurou sua ferramenta debaixo do colchão. Cuspiu na pia nacos de carne sangrenta e pedaços de vidro. Enxaguou a boca, desceu a escada e saiu pensando que a vida não é um grande lance merda nenhum. Justiça é o caralho, o negócio é vingança. A vingança mais completa possível. Agora ele é o predador. Não sente dor, nem sente medo - só sente ódio. Ácido correndo nas veias. Queimando por dentro... salivando. "Sou uma dinamite."
O cara saindo apressado do puteiro, cheio de testemunhas.
Foda-se