quinta-feira, 10 de junho de 2010

Prólogo

Enquanto escrevo, uma forte chuva inunda toda a cidade e eu vejo as gotas grossas caindo sobre os telhados, ofuscando a luz amarelada das lâmpadas de mercúrio. Quando chove assim, parece que a cidade está sendo lavada de seus pecados, mas só parece. Da janela do meu quarto vejo a chuva desabando sobre a cidade como lágrimas vindas do céu, mas nem tudo é o que parece - deus não perderia tempo chorando por ninguém.

Um sonho dentro de um sonho [2009]

"A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada." MacBeth, 5º Ato, Cena V - W. Shakespeare

Você vê o seu quarto. Está tudo lá, mas você não sabe se é real. O abajur está lá, e o telefone, a carteira e os frascos com todos os seus comprimidos. A garrafa de conhaque pela metade e meio cigarro queimando no criado. E o relógio marca onze e quarenta e sete.

Tudo está embaçado e fora de foco. Você esfrega os olhos mas a névoa não sai e você começa a tremer. No chão, do lado do seu sapato está o termômetro quebrado e o mercúrio escorre sobre suas meias. Só que é mercúrio demais, inundando o carpete.
Você está tremendo e tenta olhar para a porta no escuro mas a luz só alcança as pontas dos seus pés. E você imagina que há um vulto na porta e volta a babar no travesseiro. Suar e babar, encharcando os lençóis.
Você pode ouvir tudo, e arregala os olhos para a porta. Não tem ninguém lá, não é? Mas você sente. A respiração pesada da coisa, ou a sua. E você acorda encarando a porta trancada.

Foi só um sonho.

E o seu quarto está da mesma forma como você deixou antes de apagar - ou antes de brigar com a namorada. Quer dizer, tudo está no mesmo lugar. O abajur continua lá e o telefone e a carteira e os comprimidos. O conhaque e o cigarro carburando sobre o móvel e despejando as cinzas na poça de mercúrio sobre o carpete. Isso também continua lá. E o relógio marcando onze e quarenta e sete.

E o vulto na porta.

Você só enxerga até a guarda da sua cama, mas você sente. E treme. Você sente a aproximação e tenta gritar mas na verdade tudo nada em bosta mole porque não sai som nenhum. Azar garoto. Você bóia numa pesada cortina de silêncio. O vulto e um brilho, em sua direção: tshiimm...

Você acorda. Foi só um sonho.

É um quarto de hospital e há flores na cabeceira. Flores e uma caixa de charutos com um bilhete. Você tenta relaxar, peida e coça a orelha e tenta não olhar para seus pés, ou na direção deles.
As enfermeiras estão correndo e você imagina cada uma delas fazendo um lap dance em você, e depois esquece. Não tem sentido você pensar numa coisa dessas. Algumas sorriem pra você como se você fosse a merda de um velho desdentado incapaz de manter uma ereção à base de medicamentos.

Isso se chama condescendência.

Nenhuma mulher vai se interessar pelo seu carro, ou pelo seu peito cabeludo e musculoso, ou então pela sua tatuagem no bíceps, ou pelo seu brilhante vocabulário. Muito azar, garoto.

Só idiotas são escravizados pelo tempo e espaço.

É dia - e sua cadeira está ali com seu casaco. O telefone, o maço de cigarro, o termômetro espatifado no chão, o conhaque, as pílulas, o relógio, uma caixa de charutos com um bilhete e você levanta. Ou tenta.
É uma dor aguda no seu baixo ventre. Você tenta por os pés no chão do seu quarto e sentir o mercúrio coagular espesso e pegajoso como... sangue, porra. E atira longe o edredom ensopado, e o lençol e sua cueca nadam num liquido vermelho viscoso.

Puta que pariu.

Você pega a caixa de charutos e acende um. Lê o bilhete: "Espero que me perdoe. Amor. - M." Você se sente bem. Você se sente bem e até chora, um pouco, não muito, porra. Você vê um futuro e imagina a vida ao lado dela. Totalmente ascética, asséptica, anti-séptica, de puro amor. Idealizado. Ela sempre será sua e você poderá amá-la e não haverá a mácula nodosa da carne entre vocês. E você em lágrimas esquece da dor e da febre e se concentra na sua nova vida; limpa, pura, livre de pecado.

Então você pensa. Larga a caixa e pega o telefone. Cada minuto pode significar o fim, o desastre total, o apocalipse. Você procura na agenda dela um número mas antes de discar é o seu fone que toca.

"O que você fez comigo, sua puta!" - Você berra em prantos quando ouve a voz dela.

"Foi sua culpa, filho da puta degenerado! Sua e dessas piranhas da rua!"

"Que tipo de merda você tá inventando, caralho?"

"Espero que você se foda muito na sua vida!"

Puta que pariu, puta que pariu...

Quando ela bate o fone você disca um número da agenda dela e desaba estarrecido no travesseiro. Acorda e alí está o seu quarto. E alí está o telefone, e o abajur, e a meia garrafa de conhaque e a pequena caixa de charuto. Tem um bilhete nela e você já sabe o que é: "Este é um souvenir do nosso relacionamento e um instrumento da nossa separação. Não espero que você me perdoe. - M."

Você quer gritar mas é impossível. Você pega a caixa de madeira, feita sob medida para aquele seu charuto especial, aquele que você reserva para ocasiões especiais como depois de uma trepada com sua namorada, ou com qualquer outra. Você segura aquela porra nas mãos e dentro há um objeto cilíndrico de aproximadamente quinze centímetros e mais uma vez tenta gritar, mesmo assim não há som nenhum.

E você acorda. Acorda e disca um número da agenda dela. Você sabe o que não quer ouvir, mas vai ouvir. Dos quarenta minutos que o médico te prometeu, todos você passa dopado de comprimidos e conhaque e febre e medo.

"Doutor, ela me mutilou! A cadela decepou o meu pau!"

"Não."

"Não o quê, porra?"

"Ele ainda está aí, mas... não por muito tempo."

"Mas que caralho..."

"Você tem uma doença degenerativa de origem venérea. Seu pênis terá de ser amputado ou as células doentes se espalharão por todo seu corpo. No orifício urinário nós - instalaremos - uma pequena mangueira ligada à uma bolsa que recolherá sua urina... sugiro sua remoção para o centro cirúrgico imediatamente!"

"Espera Doutor, me deixa sozinho por uns minutos." - Você suplica enquanto pega a caixinha de madeira sobre o criado e abre. Dentro tem um havana puro. No celofane está escrito: "Com Amor. - M."

Você aproveita para relaxar e fumar o charuto. Aproveita agora que não vai mais poder aproveitar muita coisa mesmo e aproveita para dizer adeus à sua antiga vida. A cada baforada as cinzas caem e grudam no lençol pegajoso. Os comprimidos, o conhaque, a febre. É, parece que essas coisas anestesiaram você. Você apaga.

Ela está nesse quarto que parece um hospital clandestino e é o seu quarto. Ela está deitada com você, na sua cama e te cobrindo de beijos e carinhos. Você está feliz, não está? Feliz como um retardado.
Uma enfermeira peituda vem te dar uma injeção e sorrindo, ela passa a mão sobre sua testa suada.

Mas você não precisa de condescendência.

O médico entra no seu quarto abanando a fumaça do charuto e dizendo:

"Como vai o meu paciente?"

E você está ótimo, claro que tá. Mesmo depois da operação. Você recuperou a cor e as olheiras sumiram, está mais gordo mas não inchado como antes, não. Até a sua namorada está bem. Ela está limpa. Por algum motivo você não a contaminou. Mas você nunca acreditou naquela história, acreditou?
Você abraça feliz sua namorada que sorri satisfeita para o médico que tem o olho vidrado por causa de todas as pílulas e o sono e o sexo medíocre, e ele retribui beliscando a bunda da enfermeira peituda.