Enquanto meto, ela geme de quatro em cima da cama. O som da nossa carne se batendo estala dentro desse quarto vagabundo; seus peitos balançam no mesmo rítimo. Eu estou de pé, com os joelhos apoiados na borda da cama, observando minha mulher - pelada - em cima dos lençóis sujos, oferecer pra mim o corpo mais lindo que já vi em toda minha vida, enquanto ela empina o quadril contra o meu pau duro.
Gosto de agarra-la pela cintura e puxar seu cabelo até trazer sua cabeça inclinada perto da minha boca e sussurrar no seu ouvido: "te amo, gostosa!". Também gosto de dar umas palmadas ardidas naquela bunda e ouvir ela gritar com força. As vezes tiro o pau e bato com ele na sua bunda e no seu cuzinho. Depois enfio com tudo em sua boceta molhadinha, numa estocada só. Então ela goza e se joga na cama com um abandono egoísta, cheia de tesão.
Quando acordo, não posso dizer se isso tudo foi real ou só mais um sonho. Ligo a t.v. mas não assisto. Acendo um cigarro e fico olhando a fumaça subir pelo teto. Olho para o telefone - ele olha para mim.
No banheiro, deixo a água quente escorrer sobre meu suor e as cicatrizes. Tento não pensar em nada. As mulheres sempre me pareceram como apenas mais um emprego. Você passa um tempo afundado nele, enquanto sua alma é sugada e sua pele talhada de cicatrizes, depois é chutado para fora, sem nenhum aviso prévio. E você fica com uma puta sensação de vazio. Então eu abro a geladeira e pego mais uma cerveja.
Ainda não são dez horas. Muito cedo para se fazer qualquer coisa. A louça suja do jantar de anteontem ainda está na pia. A correspondência se amontoando de baixo da porta; a conta do telefone, do cartão de crédito... A chaleira está apitando em cima do fogão. Tomo meu remédio com um café amargo quando uma brisa gelada invade meu quarto. É aí que os sonhos se fundem com a realidade - e eu estou com ela outra vez em meus braços. Só mais uma vez... a última...
Agarro-a forte pela bunda. Levanto seu corpo com as duas mãos e a jogo contra a parede. Ela me envolve com suas pernas e crava as unhas nas minhas costas, enquanto morde forte meu lábio, meu pescoço. Fica sempre um gosto de sangue na boca.
É diferente cada vez que eu penetro sua boceta quente. Sinto suas pregas engolirem a cabeça do meu pau. Uma sensação que começa lá na medula e vai percorrendo o meu corpo até eu esporrar todo o meu gozo dentro do seu útero. Outra vez não sei dizer se tudo isso é uma lembrança ou a porra da minha imaginação.
***
Maldito quarto vazio. Maldito telefone. Maldita falta de dinheiro. O que são essas vozes na minha cabeça? Esses vultos nos meus sonhos? Minha camisa esburacada pela brasa do cigarro, com manchas pretas de borra de café. As meias fedendo à dias, ou meses? As baratas são minha única companhia nesse quarto. Elas caminham entre as caixas de pizza e latas vazias de cerveja em baixo da cama. Escuto elas roendo suas cascas a noite inteira. Deve ser uma vida agradável; circular por aí e esperar que a comida caia do céu de vez em quando. Sem ter que trabalhar. Sem ter que vender suas almas ao diabo. Invejo as baratas.
Então o telefone toca. Ele realmente toca? Será que eu ouvi direito? É mesmo a voz doce e sensual dela do outro lado da linha? (conheço muito bem sua voz, como se fosse a minha própria voz). Quer se encontrar comigo. Hoje? Certo. Eu te amo, gostosa. Vou estar esperando.
A vida pode ser bruta as vezes - se você viver de punhos cerrados. Relaxe, cara. Nem tudo precisa ser disputado no dente.
A campahinha toca. Deixo o blues rolando baixinho. Espremo uma espinha em frente ao espelho. Enfio dois chicletes de menta na boca. Esfrego creme dental na cabeça do pinto. Finalmente ela voltou pra mim. Mas quando abro a porta, não consigo me lembrar de como é sua fisionomia. Não tenho certeza se é ela que está alí, vestida de branco, parada em minha porta, com um sorriso nervoso.
- Amor, é você? - Pergunto.
- Sim, você me chamou...
Internação voluntário. Foi o que me disseram depois. Depois dela ter me aplicado o Demerol, dois caras de branco me amarraram numa maca e me carregaram com eles escada a baixo. Soube disso dias depois, nesse quarto fechado com uma campahinha (agora tenho até serviço de quarto). Mas mesmo ouvindo da boca das enfermeiras, não posso ter certeza do que aconteceu de verdade. Tudo passou num borrão. Minha vida passou num borrão. Onde está a mulher que eu amo? Nesse momento me dou conta de que nem ao menos sei o seu nome. Não sei se ela existe realmente. E se tudo isso foi coisa da minha cabeça? Eu estou confuso demais para raciocinar. As drogas derreteram meu cérebro. Talvez eu nunca tenha vivido fora deste quarto.
No outro lado da cidade, num apartamento recém desocupado, o telefone toca insistentemente. O guarda-roupa está vazio. A pia está limpa. O senhorio deu um jeito em toda a bagunça e sujeira do seu último inquilino. Um maluco idiota. A cidade está cheia deles. Homens e mulheres, solitários. Falando sozinhos, em quartos pequenos. Rindo sozinhos, chorando sozinhos, fodendo sozinhos. Vivendo uma vida de bosta. Sem dinheiro, sem esperança. Sem amor. O telefone continua tocando. Você não está ouvindo? A secretária eletrônica atende com o seguinte recado: " Oi, eu não estou aqui porque estou louco. Deixe seu recado, mas não vou retornar." Só que depois do sinal, uma voz doce e sexy fala ao telefone:
- Amor, você tá aí? Me atende...
Mas pode ser engano.