quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Cobrador

[Rubem Fonseca]

NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.
Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.
Só rindo. Esses caras são engraçados.
Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.
Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.
São quatrocentos cruzeiros.
Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.
Não tem não o quê?
Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.
Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.
Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!
Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.

* * *

A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.

* * *

Me irritam esses sujeitos de Mercedes. A buzina do carro também me aporrinha. Ontem de noite eu fui ver o cara que tinha uma Magnum com silenciador para vender na Cruzada, e quando atravessava a rua um sujeito que tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali tocou a buzina. Eu vinha distraído pois estava pensando na Magnum, quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente.
Como é?, ele gritou.
Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco. Saquei o 38 e atirei no pára-brisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio no pescoço e a roupa branca dele já estava toda vermelha.
Girou a cabeça que estava encostada no banco, olhos muito arregalados, pretos, e o branco em volta era azulado leitoso, como uma jabuticaba por dentro. E porque o branco dos olhos dele era azulado eu disse — você vai morrer, ô cara, quer que eu te dê o tiro de misericórdia?
Não, não, ele disse com esforço, por favor.
Vi da janela de um edifício um sujeito me observando. Se escondeu quando olhei. Devia ter ligado para a polícia.
Saí andando calmamente, voltei para a Cruzada. Tinha sido muito bom estraçalhar o pára-brisa do Mercedes. Devia ter dado um tiro na capota e um tiro em cada porta, o lanterneiro ia ter que rebolar.

* * *

O cara da Magnum já tinha voltado. Cadê as trinta mi­lhas? Põe aqui nesta mãozinha que nunca viu palmatória, ele disse. A mão dele era branca, lisinha, mas a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo tem cicatrizes, até meu pau está cheio de cicatrizes.
Também quero comprar um rádio, eu disse pro muambeiro. Enquanto ele ia buscar o rádio eu examinei melhor a Magnum. Azeitadinha, e também carregada. Com o silenciador parecia um canhão.
O muambeiro voltou carregando um rádio de pilha.
É japonês, ele disse.
Liga para eu ouvir o som.
Ele ligou.
Mais alto, eu pedi.
Ele aumentou o volume.
Puf. Acho que ele morreu logo no primeiro tiro. Dei mais dois tiros só para ouvir puf, puf.

* * *

Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.
Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.
Meu arsenal está quase completo: tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só. Vi no cinema, num desses países asiáticos, ainda no tempo dos ingleses­ um ritual que consistia em cortar a cabeça de um animal, creio que um búfalo, num golpe único. Os oficiais ingleses presidiam a cerimônia com um ar de enfado, mas os decapitadores eram verdadeiros artistas. Um golpe seco e a cabeça do animal rolava, o sangue esguichando.

* * *

Na casa de uma mulher que me apanhou na rua. Coroa, diz que estuda no colégio noturno. Já passei por isso, meu colégio foi o mais noturno de todos os colégios noturnos do mundo, tão ruim que já não existe mais, foi demolido. Até a rua onde ele ficava foi demolida. Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./
Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende. Continuo: Sabia sambar e cair na paixão/ e rolar pelo chão/ apenas por pouco tempo./ Do suor do seu rosto nada fora construído./ Queria morrer com ela,/ mas isso foi outro dia,/ ainda outro dia./ No cinema Íris, na rua da Carioca/ o Fantasma da Ópera/ Um sujeito de preto,/ pasta preta, o rosto escondido,/ na mão um lenço branco imaculado,/ tocava punheta nos espectadores;/ na mesma época, em Copacabana,/ um outro/ que nem apelido tinha,/ bebia o mijo dos mictórios dos cinemas/ e o rosto dele era verde e inesquecível./ A História é feita de gente morta/ e o futuro de gente que vai morrer./ Você pensa que ela vai sofrer?/ Ela é forte; resistirá./ Resistiria também; se­ fosse fraca./ Agora você, não sei./ Você fingiu tanto tempo, deu socos e gritos, embusteou/ Você está cansado,/ você. acabou,/ não sei o que te mantém vivo./
Ela não entendia de poesia. Estava solo comigo e que­ria fingir indiferença, dava bocejos exasperados. A farsanteza das mulheres.
Tenho medo de você, ela acabou confessando.
Essa fodida não me deve nada, pensei, mora com sacrifício num quarto e sala, os olhos dela já estão empapuçados de beber porcarias e ler a vida das grã-finas na revista Vogue.
Quer que te mate?, perguntei enquanto bebíamos uísque ordinário.
Quero que você me foda, ela riu ansiosa, na dúvida. Acabar com ela? Eu nunca havia esganado ninguém com as próprias mãos. Não tem muito estilo, nem drama, esga­nar-se alguém, parece briga de rua. Mesmo assim eu tinha vontade de esganar alguém, mas não uma infeliz daquelas. Para um zé-ninguém, só tiro na nuca?
Tenho pensado nisso, ultimamente. Ela tinha tirado a roupa: peitos murchos e chatos, os bicos passas gigantes que alguém tinha pisado; coxas flácidas com nódulos de celulite, gelatina estragada com pedaços de fruta podre.
Estou toda arrepiada, ela disse.
Deitei sobre ela. Me agarrou pelo pescoço, sua boca e língua na minha boca, uma vagina viscosa, quente e olorosa.
Fodemos.
Ela agora está dormindo.
Sou justo.

* * *

Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assaltado pelo bandido Boca Larga. Só rindo.
Faço um poema denominado Infância ou Novos Cheiros de Buceta com U: Eis-me de novo/ ouvindo os Beatles/ na Rádio Mundial/ às nove horas da noite/ num quarto/ que poderia ser/ e era/ de um santo mortificado/ Não havia pecado/ e não sei por que me lepravam/ por ser inocente/ ou burro/ De qualquer forma/ o chão estava sempre ali/ para fazer mergulhos./ Quando não se tem dinheiro/ é bom ter músculos/ e ódio./
Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles.

* * *

Da rua vejo a festa na Vieira Souto, as mulheres de vestido longo, os homens de roupas negras. Ando lentamente, de um lado para o outro na calçada, não quero despertar suspeitas e o facão por dentro da calça, amarrado na perna, não me deixa andar direito. Pareço um aleijado, me sinto um aleijado. Um casal de meia-idade passa por mim e me olha com pena; eu também sinto pena de mim, manco e sinto dor na perna.
Da calçada vejo os garçons servindo champanha francesa. Essa gente gosta de champanha francesa, vestidos franceses, língua francesa.
Estava ali desde as nove horas, quando passara em frente, todo municiado, entregue à sorte e ao azar, e a festa surgira.
As vagas em frente ao apartamento foram logo ocupa­das e os carros dos visitantes passaram a estacionar nas es­curas ruas laterais. Um deles me interessou muito, um carro vermelho e nele um homem e uma mulher, jovens e elegantes. Caminharam para o edifício sem trocar uma palavra, ele ajeitando a gravata borboleta e ela o vestido e o cabelo. Prepararam-se para uma entrada triunfal mas da calçada vejo que a chegada deles foi, como a dos outros, recebida com desinteresse. As pessoas se enfeitam no cabeleireiro, no costureiro, no massagista e só o espelho lhes dá, nas festas, a atenção que esperam. Vi a mulher no seu vestido azul esvoaçante e murmurei — vou te dar a atenção que você merece, não foi à toa que você vestiu a sua melhor calcinha e foi tantas vezes à costureira e passou tantos cremes na pele e botou perfume tão caro.
Foram os últimos a sair. Não andavam com a mesma firmeza e discutiam irritados, vozes pastosas, enroladas.
Cheguei perto deles na hora em que o homem abria a porta do carro. Eu vinha mancando e ele apenas me deu um olhar de avaliação rápido e viu um aleijado inofensivo de baixo preço.
Encostei o revólver nas costas dele.
Faça o que mando senão mato os dois, eu disse.
Para entrar de perna dura no estreito banquinho de trás não foi fácil. Fiquei meio deitado, o revólver apontado para a cabeça dele. Mandei que seguisse para a Barra da Tijuca. Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis.
Nós não Lhe fizemos nada, ele disse.
Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima.
Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho.
Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.
O homem assistiu a tudo sem dizer, uma palavra, a carteira de dinheiro na mão estendida. Peguei a carteira da mão dele e joguei pro ar e quando ela veio caindo dei-lhe um bico; de canhota, jogando a carteira longe.
Amarrei as mãos dele atrás das costas com uma corda que eu levava. Depois amarrei os pés.
Ajoelha, eu disse.
Ele ajoelhou.
Os faróis do carro iluminavam o seu corpo. Ajoelhei-me ao seu lado, tirei a gravata borboleta, dobrei o colarinho, deixando seu pescoço à mostra.
Curva a cabeça, mandei.
Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.
A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o pára­lama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.

* * *

Uma caixa preta debaixo do braço. Falo com a língua presa que sou o bombeiro que vai fazer o serviço no aparta­mento duscenthos e um. O porteiro acha graça na minha língua presa e me manda subir. Começo do último andar. Sou o bombeiro (língua normal agora) vim fazer o serviço. Pela abertura, dois olhos: ninguém chamou bombeiro não. Desço para o sétimo, a mesma coisa. Só vou ter sorte no primeiro andar.
A empregada me abriu a porta e gritou lá para dentro, é o bombeiro. Surgiu uma moça de camisola, um vidro de esmalte de unhas na mão, bonita, uns vinte e cinco anos.
Deve haver um engano, ela disse, nós não precisamos de bombeiro.
Tirei o Cobra de dentro da caixa. Precisa sim, é bom ficarem quietas senão mato as duas. Tem mais alguém em casa? O marido estava trabalhando e o menino no colégio. Amarrei a empregada, fechei sua boca com esparadrapo. Levei a dona pro quarto.
Tira a roupa.
Não vou tirar a roupa, ela disse, a cabeça erguida. Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara. Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim. Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço, passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar lubrifi­cado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa.
Como já não tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro do que eu. Com o resto da porra que saía do meu pau fiz um círculo em volta do umbigo dela.
Vê se não abre mais a porta pro bombeiro, eu disse, antes de ir embora.

***

Saio do sobrado da rua Visconde de Maranguape. Uma panela em cada molar cheio de cera do Dr. Lustosa/ mastigar com os dentes da frente/ punheta pra foto de revista/ livros roubados./ Vou para a praia.
Duas mulheres estão conversando na areia; uma tem o corpo queimado de sol, um lenço na cabeça; a outra é clara, deve ir pouco à praia; as duas têm o corpo muito bonito; a bunda da clara é a bunda mais bonita entre todas que já vi.
Sento perto, e fico olhando. Elas percebem meu interesse e começam logo a se mexer, dizer coisas com o corpo, fazer movimentos aliciantes com os rabos. Na praia somos todos iguais, nós os fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e a bunda mole dos para­sitas. Eu quero aquela mulher branca! Ela inclusive está interessada em mim, me lança olhares. Elas riem, riem, dentantes. Se despedem e a branca vai andando na direção de Ipanema, a água molhando os seus pés. Me aproximo e vou andando junto, sem saber o que dizer
Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida, e o cabelo dela é fino e tratado, o seu tórax é esbelto, os seios pequenos, as coxas são sólidas e redondas e musculosas e a bunda é feita de dois hemisférios rijos. Corpo de bailarina.
Você estuda balé?
Estudei, ela diz. Sorri para mim. Como é que alguém pode ter boca tão bonita? Tenho vontade de lamber dente por dente da sua boca. Você mora por aqui?, ela pergunta. Moro, minto. Ela me mostra um prédio na praia, todo de mármore.

* * *

De volta à rua Visconde de Maranguape. Faço hora para ir na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico. Afio o facão com uma pedra especial, o pescoço daquele janota era muito duro. Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando os paus-de-araras, e depois vêm para o Rio, e os filhos de cabeça chata já não têm mais sotaque, pintam o cabelo de louro e dizem que são descendentes de holandeses.
Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo. Joguei uma cueca pro alto e tentei cortá-la com o facão, como o Saladino fazia (com um lenço de seda) no cinema.
Não se fazem mais cimitarras como antigamente/ Eu sou uma hecatombe/ Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador./
Vou no quarto onde Dona Clotilde está deitada há três anos. Dona Clotilde é dona do sobrado.
Quer que eu passe o escovão na sala?, pergunto.
Não meu filho, só queria que você me desse a injeção de trinevral antes de sair.
Fervo a seringa, preparo a injeção. A bunda de Dona Clotilde é seca como uma folha velha e amassada de papel de arroz.
Você caiu do céu, meu filho, foi Deus que te mandou, ela diz.
Dona Clotilde não tem nada, podia levantar e ir comprar coisas no supermercado. A doença dela está na cabeça. E depois de três anos deitada, só se levanta para fazer pipi e cocô, ela não deve mesmo ter forças.
Qualquer dia dou-lhe um tiro na nuca.

* * *

Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar — dou pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem, ou um macaco.
Quem quiser mandar em mim pode querer, mas vai morrer. Estou querendo muito matar um figurão desses que mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de sangue engrossado por caviares e champãs. Come caviar/ teu dia vai chegar./ Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. A moça do prédio de mármore? Entro e ela está me esperando, sentada na sala, quieta, imóvel, o cabelo muito preto, o rosto branco, parece uma fotografia.
Vamos sair, eu digo para ela. Ela me pergunta se estou de carro. Digo que não tenho carro. Ela tem. Descemos pelo elevador de serviço e saímos na garagem, entramos num Puma conversível.
Depois de algum tempo pergunto se posso dirigir e trocamos de lugar. Petrópolis está bem?, pergunto. Subimos a serra sem dizer uma palavra, ela me olhando. Quando chega­mos a Petrópolis ela pede que eu pare num restaurante. Digo que não tenho dinheiro nem fome, mas ela tem as duas coisas, come vorazmente como se a qualquer momento fossem levar o prato embora. Na mesa ao lado um grupo de jovens bebendo e falando alto, jovens executivos subindo na sexta-­feira e bebendo antes de encontrar a madame toda enfeitada para jogar biriba ou falar da vida alheia enquanto traçam queijos e vinhos. Odeio executivos. Ela acaba de comer. E agora? Agora vamos voltar, eu digo, e descemos a serra, eu dirigindo como um raio, ela me olhando. Minha vida não tem sentido, já pensei em me matar, ela diz. Paro na rua Visconde de Maranguape. É aqui que você mora? Saio sem dizer nada. Ela sai atrás: vou te ver de novo? Entro e enquanto vou subindo as escadas ouço o barulho do carro partindo.

* * *

Top Executive Club. Você merece o melhor relax, feito de carinho e compreensão. Nossas massagistas são completas. Elegância e discrição.
Fica quieto senão chumbo a sua barriga executiva.
Ele tem o ar petulante e ao mesmo tempo ordinário do ambicioso ascendente egresso do interior, deslumbrado de coluna social, comprista, eleitor da Arena, católico, cursilhista, patriota, mordomista e bocalivrista, os filhos estudando na PUC, a mulher transando decoração de interiores e sócia de butique.
Como é executivo, a massagista te tocou punheta ou chupou teu pau?
Você é homem, sabe como é, entende essas coisas, ele disse. Papo de executivo com chofer de táxi ou ascensorista. De Botucatu para a Diretoria, acha que já enfrentou todas as situações de crise.
Não sou homem porra nenhuma, digo suavemente, sou o Cobrador.
Sou o Cobrador!, grito.
Ele começa a ficar da cor da roupa. Pensa que sou maluco e maluco ele ainda não enfrentou no seu maldito escritório refrigerado.
Vamos para sua casa, eu digo.
Eu não moro aqui no Rio, moro em São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?, pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus, salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no peito. O da mulher na cabeça, puf.

* * *

Para esquecer a moça que mora no edifício de mármore vou jogar futebol no aterro. Três horas seguidas, minhas per­nas todas escalavradas das porradas que levei, o dedão do pé direito inchado, talvez quebrado. Sento suado ao lado do campo, junto de um crioulo lendo O Dia. A manchete me interessa, peço o jornal emprestado, o cara diz se tu quer ler o jornal por que não compra? Não me chateio, o crioulo tem poucos dentes, dois ou três, tortos e escuros. Digo, tá, não vamos brigar por isso. Compro dois cachorros-quentes e duas cocas e dou metade pra ele e ele me dá o jornal. A manchete diz: Polícia à procura do louco da Magnum. Devolvo o jornal pro crioulo. Ele não aceita, ri para mim enquanto mastiga com os dentes da frente, ou melhor com as gengivas da frente que de tanto uso estão afiadas como navalhas. Notícia do jornal: Um grupo de grã-finos da zona sul em grandes preparativos para o tradicional Baile de Natal — Primeiro Grito de Carnaval. O baile começa no dia vinte e quatro e termina no dia primeiro do Ano Novo; vêm fazendeiros da Argentina, herdeiros da Alemanha, artistas americanos, executivos japoneses, o parasitismo internacional. O Natal virou mesmo uma festa. Bebida, folia, orgia, vadiagem.
O Primeiro Grito de Carnaval. Só rindo. Esses caras são engraçados.
Um maluco pulou da ponte Rio-Niterói e boiou doze horas até que uma lancha do Salvamar o encontrou. Não pegou nem resfriado.
Um incêndio num asilo matou quarenta velhos, as famílias celebraram.

* * *

Acabo de dar a injeção de trinevral em Dona Clotilde quando tocam a campainha. Nunca tocam a campainha do sobrado. Eu faço as compras, arrumo a casa. Dona Clotilde não tem parentes. Olho da sacada. É Ana Palindrômica.
Conversamos na rua. Você está fugindo de mim?, ela pergunta. Mais ou menos, digo. Vou com ela pro sobrado. Dona Clotilde, estou com uma moça aqui, posso levar pro quarto? Meu filho, a casa é sua, faça o que quiser, só quero ver a moça.
Ficamos em pé ao lado da cama. Dona Clotilde olha para Ana um tempo enorme. Seus olhos se enchem de lágrimas. Eu rezava todas as noites, ela soluça, todas as noites para você encontrar uma moça como essa. Ela ergue os braços magros cobertos de finas pelancas para o alto, junta as mãos e diz, oh meu Deus, como vos agradeço!
Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, como no poema, e tiro a roupa dela e ela a minha e o corpo dela é tão lindo que sinto um aperto na garganta, lágrimas no meu rosto, olhos ardendo, minhas mãos tremem e agora estamos deitados, um no outro, entrançados, gemendo, e mais, e mais, sem parar, ela grita; a boca aberta, os dentes brancos como de um elefante jovem, ai, ai, adoro a tua obsessão!, ela grita, água e sal e porra jorram de nossos corpos, sem parar.
Agora, muito tempo depois, deitados olhando um para o outro hipnotizados até que anoitece e nossos rostos brilham no escuro e o perfume do corpo dela traspassa as paredes do quarto.
Ana acordou primeiro do que eu e a luz está acesa. Você só tem livros de poesia? E estas armas todas, pra quê? Ela pega a Magnum no armário, carne branca e aço negro, aponta pra mim. Sento na cama.
Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha testa. Aqui não dói.
Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha testa.
Já.
Foi bom?
Foi.
Como?
Um alívio.
Como nós dois na cama?
Não, não, outra coisa. O outro lado disso.
Eu não tenho medo de você, Ana diz.
Nem eu de você. Eu te amo.
Conversamos até amanhecer. Sinto uma espécie de febre. Faço café pra Dona Clotilde e levo pra ela na cama. Vou sair com Ana, digo. Deus ouviu minhas preces, diz a velha entre goles.

* * *

Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mor­tos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhas­sem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.
O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana.
Notícia: O Governador vai se fantasiar de Papai Noel. Notícia: menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração. Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus. Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores. Policia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal. O Cardeal na televisão: a festa de Natal está deturpada, o seu sentido não é este, essa história de Pagai Noel é uma invenção infeliz. O Cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.
Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.
Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais. Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso manifesto.
Ponho as armas numa mala. Ana atira tão bem quanto eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é obsoleta. Damos até logo à Dona Clotilde. Botamos a mala no carro. Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja, nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.

domingo, 26 de junho de 2011

Tripas

[Chuck Palahniuk]

Inspire.
Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.
Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.
Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.
Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.
Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.
As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa….
Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.
Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.
Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.
Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.
Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.
Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.
Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.
O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.
Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.
Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.
O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.
Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais expesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.
O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.
No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.
Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.
Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.
Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.
Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.
A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.
Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cú chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.
Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.
Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.
Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.
Faço isso de novo, e de novo.
Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cu sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.
E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.
Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.
Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.
As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.
Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.
Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cu. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.
Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.
Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.
Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.
Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.
O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.
Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.
Deus proíba que meus pais vejam meu pau.
Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.
Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.
Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.
Você então vê contra o que eu lutava.
Se eu largo, sai tudo.
Se eu nado para a superfície, sai tudo.
Se eu não nadar, me afogo.
É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.
O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na árgua turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.
Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.
Algo sobre o qual nem os franceses falam.
Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cu……
Mne eto nado kak zuby v zadnitse.
Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.
Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.
Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cu. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.
Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.
É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.
Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim….
Precisava disso como precisaria de dentes no cu.
Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.
Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.
Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”
Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”
E então a menstruação da minha irmã atrasou.
Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode respirar.
Eu ainda não.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Memento Mori

[Jonathan Nolan]

1

"What like a bullet can undeceive!" - Herman Melville

Sua esposa sempre costumava dizer "você se atrasaria até para seu próprio funeral". Lembra-se disso? Suas piadinhas por você ter sido tão lesado - sempre atrasado, sempre esquecendo coisas, mesmo antes do incidente.
Você deve estar imaginando se, neste exato momento, não está atrasado para o funeral dela.
Você esteve lá, você tem certeza disto. Esta é a cena a saber - o tal grudado na parede perto da porta. Não é comum tirar fotos num funeral, mas alguém, seus médicos, EU suponho, sabiam que você não se lembraria. Eles fizeram a coisa direitinho e pararam ali, próximos à porta, então você não pôde ajudar - mas enxerga toda hora - você se levantou para descobrir onde ela estava.
O cara na foto, o com as flores? Este é você. E o que você está fazendo? Está lendo a lápide, tentando adivinhar de quem é o funeral em que você está, assim como você está lendo agora, tentando adivinhar porque alguém permanece naquele quadro perto da sua porta. Mas por que se incomodar lendo algo que você não lembra?
Ela se foi, se foi pra valer, e você deve estar se remoendo agora, ouvindo o noticiário. Acredite em mim, eu sei como você se sente. Você, provavelmente, é um náufrago. Mas dê cinco minutos, talvez dez. Talvez leve uma boa meia hora antes que você esqueça.
Mas você esquecerá - eu garanto. Mais alguns minutos e você estará de olho na porta, procurando-a novamente, desesperando-se quando achar a foto. Quantas vezes você terá que ouvir o noticiário antes que uma parte do seu corpo, outra que não esse seu cérebro zoado, comece a lembrar?
Aflição interminável, fúria interminável. Inúteis sem direção. Talvez você não entenda nada do que aconteceu. Nem eu posso dizer que entendi. Amnésia em sentido oposto. Isto é o que as siglas dizem. Mal de "CRS". Seu palpite é tão bom quanto o meu..
Talvez você não entenda o que aconteceu a você. Mas você se lembra do que aconteceu a ELA, não lembra? Os médicos não querem falar a respeito. Eles não respondem minhas perguntas. Eles não acham que seja bom para um homem em suas condições ouvir sobre certas coisas. Mas você tem a lembrança suficiente, não tem? Você se lembra do rosto dele.
Por isso é que estou escrevendo para você. Inutilmente, talvez. Eu não sei quantas vezes você terá que ler isto antes que me ouça. Eu nem sei há quanto tempo você está trancado neste quarto. Assim como você. Mas sua vantagem nos esquecimentos é que você esquecerá de se descrever como uma causa perdida.
Cedo ou tarde você irá querer fazer algo a respeito. E quando o fizer você terá que acreditar em mim, porque eu sou o único que pode te ajudar.

2

EARL ABRE UM OLHO depois do outro para ver um pedaço de teto com azulejos brancos interrompidos por um recado escrito à mão colado bem em cima de sua cabeça, grande o bastante para ele ler da cama. Um rádio-relógio toca em algum lugar. Ele lê o que está escrito, pisca, lê de novo, e dá uma olhada no quarto.
É um quarto branco, sufocantemente branco, das paredes e cortinas até as mobílias institucionais e a colcha. O rádio-relógio toca da mesa branca sob a janela com as cortinas brancas. Earl, a esta altura, provavelmente nota que está descansando numa consoladora brancura. Ele já está usando um roupão e chinelos.
Ele volta a deitar e lê o recado grudado no teto de novo. Diz, em blocos crus de letras maiúsculas, ESTE É SEU QUARTO. É UM QUARTO NUM HOSPITAL. É ONDE VOCÊ MORA AGORA.
Earl se levanta e dá uma olhada ao redor. O quarto é grande para um de hospital - linóleos vazios estendem-se da cama para três direções. Duas porta e uma janela. A vista não ajuda muito também - um close de árvores no centro de um pedaço de gramado muito bem cuidado que termina numa alameda de piche. As árvores, com exceção da esverdeada, estão desfolhadas - início de primavera ou fim de outono, um ou outro.
Cada polegada da mesa está coberto com notas em "Post- it", blocos de anotações legítimos, listas de impressão nítida, textos psicológicos, fotos em pedaços. Sobre a bagunça tem um jogo de palavras cruzadas pela metade. O rádio-relógio está sobre uma pilha de jornais dobrados. Earl bate no botão "soneca" e pega um cigarro do maço preso à manga de seu roupão. Tateia os bolsos vazios de seu pijama procurando fogo. Vasculha os papéis sobre a mesa, dá uma espiada nas gavetas. Eventualmente ele encontra uma caixa de fósforos de cozinha junto à parede próxima à janela. Outro recado está bem acima da caixa. Diz em gritantes letras amarelas, CIGARROS? PEGUE OS MAIS FRACOS ANTES, ESTÚPIDO.
Earl ri do recado, acende seu cigarro, e dá uma longa tragada. Preso à janela, à sua frente está outro pedaço de papel solto designado: SEU CRONOGRAMA
É tabelado por horas, cada hora, em blocos: 10 da noite a 8 da manhã está legendado VOLTE A DORMIR. Earl consulta o rádio-relógio: 8:15. Tem luz do lado de fora, deve ser de manhã. Ele olha seu relógio: 10:30. Ele coloca o relógio perto do ouvido e ouve. Dá uma ou duas voltas nos ponteiros para ajustar com o rádio-relógio.
De acordo com o cronograma, todo o período de 8:00 até 8:30 foi legendado ESCOVE OS DENTES. Earl riu de novo e foi até o banheiro.
A janela do banheiro está aberta. Conforme ele agita os braços para manter-se aquecido, vê o cinzeiro no parapeito. Um cigarro está largado no cinzeiro, queimando calmamente formando uma cinza do tamanho de um dedo. Ele franze as sobrancelhas, apaga a velha bituca, e substitui por uma nova.
A escova de dente já foi agraciada com uma borrada de pasta branca. torneira é do tipo com botão de apertar - uma dose de água em cada cutucada. Earl aperta a escova até suas bochechas e a retira e continua o movimento enquanto abre o armário de medicamentos. As prateleiras estão abarrotadas com frascos, tipo amostra grátis, de vitaminas, aspirinas, antidiuréticos. O flúor é também do tipo amostra grátis, líquido azul numa garrafa de plástico selado. Apenas a pasta de dente é de tamanho normal. Earl cospe a pasta pra fora da boca e coloca o flúor. Conforme ele deixa a escova de dente próximo à pasta, percebe um pedacinho de papel apertado entre a estante de vidro e o aço que recobre o armário de medicamentos. Cospe o espumante fluído azul na pia e cutuca a torneira por mais água para jogar tudo fora. Fecha o armário e sorri para seu reflexo no espelho.
"Quem precisa de meia hora para escovar o dente?"
O papel estava minusculamente dobrado, com a mesma precisão que um bilhetinho de amor infantil. Earl desdobrou-o e o alisou contra o espelho. Lia-se --
SE VOCÊ AINDA PODE LER ISTO, ENTÃO VOCÊ É UM PUTA COVARDE.
Earl ficou estupefato diante do papel, e leu-o de novo. Ele o virou. Atrás estava --
OBS: APÓS LER ISTO, ESCONDA-O NOVAMENTE.
Earl releu cada um dos lados, tornou a dobrar o bilhete até seu tamanho original e colocou-o embaixo da pasta de dentes.
Então ele percebeu a cicatriz. Começava bem abaixo da orelha, uma linha irregular e grossa, e desaparecia abruptamente, muito fina. Earl girou a cabeça e ficou olhando com o canto do olho para seguir a progressão da cicatriz. Ele percorreu seu caminho com o dedo, então olhou de volta para o cigarro queimando no cinzeiro. Um pensamento o apanhou e ele saiu do banheiro.
Ele se flagra na porta do quarto, uma mão na maçaneta. Duas fotos estão presas na parede, perto da porta. A atenção de Earl primeiro se prende à radiografia, uma tira brilhante e negra com quatro imagens do crânio de alguém. Em caneta marca-texto está intitulado SEU CÉREBRO. Earl encara a foto. Círculos concêntricos em cores diferentes. Ele pode marcar as grandes órbitas de seus olhos e, atrás delas, os lobos gêmeos de seu cérebro. Leves rugas, círculos, semicírculos. Mas bem no meio da sua cabeça, circulado com marca-texto, aprofundado na parte de trás de seu pescoço, como uma mancha num damasco, tem algo diferente. Deformado, quebrado, mas inconfundível. Uma mancha escura, no formato de uma flor, bem ali, no meio do seu cérebro.
Ele se curva para olhar a outra foto. É a fotografia de um homem segurando flores, parado sobre um túmulo. O homem está curvado, lendo a lápide. Por um momento isto parece uma sala de espelhos ou o esboço inicial do infinito: o Homem curvado, olhando o homem, curvado, lendo a lápide. Earl olha para a foto por muito tempo. Talvez tenha começado a chorar. Talvez apenas permanecia calado em frente à foto. Finalmente, ele faz o caminho de volta à cama, deita-se, cerra os olhos, tenta dormir.
O cigarro queimando no banheiro. Um circuito no rádio-relógio faz contagem regressiva a partir do dez, e começa a tocar de novo.
Earl abre um olho depois do outro para ver um pedaço de teto com azulejos brancos interrompidos por um recado escrito à mão colado bem em cima de sua cabeça, grande o bastante para ele ler da cama.

3

Você não pode ter mais uma vida normal. Você precisa saber disto. Como você pode ter uma namorada se você não lembrar o nome dela? Não pode ter filhos, a não ser que você queria que eles cresçam com um pai que não os reconheçam. Com certeza não consegue ficar num emprego. Não são muitos os profissionais por aí estimados por seu esquecimento. Prostituição, talvez. Política, certamente.
Não. Sua vida acabou. Você é um cara morto. A única coisa que os médicos esperam fazer é te ensinar a ser menos que um fardo para os receituários. E eles provavelmente nunca te deixarão ir para casa, onde quer que ela seja.
Então a questão não é "ser ou não ser", porque você não é. A questão é se você quer fazer algo a respeito. Se vingança te importa.
Acontece com a maioria das pessoas. Por umas poucas semanas, eles marcam a terra, eles planejam, eles tiram as medidas para nivelar as coisas. Mas a passagem do tempo é o suficiente para sucumbir o impulso inicial. O tempo é um ladrão, não é o que dizem? E o tempo acaba convencendo a maioria de nós que perdão é uma virtude. Convenientemente, covardia e perdão parecem a mesma coisa de certo ponto de vista. Tempo rouba sua força.
Se tempo e medo não são suficientes para dissuadir as pessoas de suas vinganças, pelo menos elas terão sempre a segurança, balançam suas cabeças calmamente e dizem, NÓS entendemos, mas você é o homem apropriado para deixar essas coisas pra lá. De superar estas coisas. De não se rebaixar ao nível deles. E além disso, digo com autoridade, se você tentar alguma coisa estúpida, nós te trancaremos num quartinho.
Mas eles já te colocaram no quarto, não foi? Só que eles não prestam muita atenção em você nem botam uma vigilância muito rigorosa porque você é um aleijado. Um cadáver. Um vegetal que provavelmente não se lembraria de comer ou cagar se não tivesse alguém pra te lembrar.
E conforme a passagem do tempo, bem, isto não se aplica mais a você, não é? São aqueles mesmos dez minutos, repetidas vezes. Então como você pode perdoar se você não recorda para esquecer?
Você devia ser o tipo "deixa pra lá", acertei? Antes. Mas você não é mais aquele homem. Nem metade dele. Você é uma fração; você é o homem dez-minutos.
Claro, a fraqueza é grande. O primeiro impulso. Você deve preferir sentar no seu quartinho e chorar. Viver na sua coleção restrita de memórias, polindo carinhosamente cada uma delas. Vida meia-boca colocada atrás de um vidro e definhando sobre uma cartolina como uma coleção de insetos exóticos. Você gostaria de viver atrás deste vidro, não é? Preservado em formol.
Você gostaria de viver assim mas não pode, certo? Não pode por causa da última aquisição para sua coleção. A última coisa que você lembra. O rosto dele. O rosto dele e sua esposa, te pedindo ajuda com os olhos.
E talvez seja aí onde você possa descansar quando tudo acabar. Sua pequena coleção. Eles podem te trancar em outro quartinho e você pode viver o resto da sua vida no passado. Mas só se você tiver um pedacinho de papel na mão dizendo que você o pegou.
Você sabe que estou certo. Você sabe que tem muito trabalho a fazer. Pode parecer impossível, mas tenho certeza que se cada um fizer sua parte, vamos pensar em como fazer. Mas você não tem muito tempo. Tem apenas cerca de dez minutos, pra dizer a verdade. Daí começa tudo de novo. Então faça alguma coisa com o tempo que você tem.

4

EARL ABRE SEUS OLHOS e pisca na escuridão. O rádio-relógio toca. Marca 3:20, e o luar vazado pela janela significa que deve ser madrugada. Earl tateia em busca do abajur, quase se debatendo. Luz incandescente preenche o ambiente, pintando o metal da mobília de amarelo, as paredes de amarelo, a colcha também. Ele se deita e olha pra cima, para o pedaço de teto de azulejos amarelos sobre si, interrompidos por um recado escrito à mão grudado no teto. Ele lê o que diz duas, talvez três vezes, pisca os olhos para o quarto a seu redor.
É um quarto nu. Institucional, talvez. Tem uma mesa logo abaixo da janela. A mesa está vazia a não ser pelo gritante rádio-relógio. Earl percebe, neste momento, que está totalmente vestido. Até os sapatos colocados sob o lençol. Salta da cama e vai até a mesa. Nada no quarto sugeria que alguém vive ali, ou que já tinha vivido, exceto por pedaços de fita grudados, espalhados aqui e ali na parede. Nenhum quadro, nenhum livro, nada. Pela janela, ele pode ver a lua cheia iluminando o gramado bem cuidado.
Earl bate no botão "soneca" do rádio-relógio e encara por um momento as duas chaves grudadas na palma de sua mão. Ele sente a picada da fita enquanto vasculha as gavetas vazias. No bolso esquerdo da sua jaqueta, ele encontra um maço de notas de cem dólares e uma carta selada num envelope. Ele checa o resto do quarto e o banheiro. Pedaços de fita, bitucas de cigarro. Nada mais.
Earl distraidamente brinca com o inchaço da cicatriz em seu pescoço e volta para a cama. Deita-se de costas e fixa os olhos no teto, para o recado grudado nele. O recado diz, LEVANTE-SE, SAIA DAÍ AGORA. ESSA GENTE ESTÁ TENTANDO TE MATAR.
Earl fecha os olhos.

5

Eles tentaram te ensinar a fazer listagens no primário, lembra? Naqueles dias quando suas tarefas diárias ficavam na palma da sua mão. E se suas anotações saíssem no banho, bem, daí eles não teriam cumprido a lição. Sem direção, eles disseram. Sem disciplina. Então eles tentaram fazer você escrever as coisas em algum lugar mais confiável.
Claro, seus professores primários estariam se mijando de tanto rir se pudessem te ver agora. Porque você se tornou o produto exato das suas aulas burocráticas. Porque você nem consegue mijar sem consultar uma de suas anotações.
Eles estavam certos. Anotações são o único jeito de sair da bagunça.
Esta é a verdade: As pessoas, mesmos as normais, nunca são nada sem uma lista de atribuições. Não é tão simples. Estamos à mercê do sistema límbico, nuvens de eletricidade pairando pelo cérebro. Todo homem é domesticado nas frações de vinte e quatro horas, e de novo, no limite das vinte e quatro horas. É uma pantomima diária, um homem cedendo controle para o outro: uma coxia abarrotada de velhos mercenários clamando por sua vez ao holofote. Toda semana, todo dia. O homem irritado dá a mão para o mal-humorado, e abraça o viciado em sexo, o introvertido, o tradicionalista. Todo homem é uma multidão, um monte de idiotas diferentes.
Esta é a tragédia da vida. Porque por alguns minutos de cada dia, todo homem se torna um gênio. Momentos de claridade, revelação, chame como quiser. As nuvens se dissipam, os planetas se alinham, e tudo se torna óbvio. Eu deveria parar de fumar, talvez, ou agora sei como me tornar milionário, ou esta e esta são as chaves para a alegria eterna. Esta é verdade miserável. Por alguns momentos, os segredos do universo se abrem para nós. A vida é uma armadilha de falatório barato.
Mas aí o gênio, o sábio, tem que ceder o controle para o próxima cara da fila, na maioria das vezes é o cara que só quer comer batatas fritas, e a revelação, brilhantismo e salvação são passados para um imbecil ou um hedonista ou um narcoléptico.
O único jeito de sair desta bagunça, com certeza, é tomar providências para certificar-se que você controla as idiotices em que você se transformou. Pegar seus idiotas, um por um, e liderá-los. A melhor forma de fazer isto é fazer registros.
É como uma carta que se escreve para si mesmo. Um planejamento, feito pelo cara que viu a luz, feito com passos simples o bastante para que o resto dos idiotas possam entender. Siga os estágios de um até cem. Repita, se necessário.
Seu problema é um pouco mais agudo, talvez, mas basicamente é a mesma coisa.
É como aquele troço de computador, a sala Chinesa. Lembra daquilo? Um cara senta-se numa sala, descendo cartas com letras escritas numa linguagem que ele não entende, vai descendo as cartas com uma letra por vez, de acordo com a seqüência das instruções de outra pessoa. As cartas supostamente devem formar uma piada em chinês. O cara não fala chinês, é claro. Ele apenas segue as instruções.
Há algumas diferenças óbvias no seu caso, é claro: Você saiu fora da sala que eles te puseram, então toda a aventura vai ter que ser ambulante. E o cara que dá as instruções - o cara é você também, só que uma versão anterior de você. E a piada que estão contando, bem, tem o seu charme. Eu só acho difícil de alguém achar engraçado.
Então, a idéia é esta. Tudo o que você tem que fazer é seguir as instruções. Como subir numa escada de mão ou descer do sótão. Um passo de cada vez. Seguindo os registros. Simples.
E o segredo, é claro, para qualquer registro é mantê-lo num lugar onde você pode ver.

6

ELE PODE OUVIR O ZUMBIDO através de suas pálpebras. Insistente. Ele sai caçando o rádio-relógio, mas não consegue mexer seu braço.
Earl abre seus olhos e vê um homenzarrão curvado sobre si. O homem o observa de cima a baixo, contrariado, e termina o trabalho. Earl olha ao redor. Muito escuro para um consultório médico.
A dor transborda em seu cérebro, bloqueando suas dúvidas. Ele se contorce de novo, tentando mexer o antebraço, aquele que ele sente como se queimasse. O braço não se move, mas o homem lhe dá outro olhar de raiva. Earl se arruma na cadeira para poder ver o que há acima da cabeça do homem.
A náusea e a dor vêm juntas da arma na mão do homem - uma arma com uma agulha onde o cano deveria estar. A agulha está perfurando a carne do antebraço de Earl, deixando uma trilha de letras em rajadas para trás.
Earl tenta se recompor para ter uma melhor visão, para ler as letras em seu braço, mas não consegue. Ele se recosta e olha para o teto.
O tatuador desliga o barulho, cobre o antebraço de Earl com um pedaço de gaze, e perambula até a parte de trás para trazer um panfleto descrevendo o que fazer em caso de infecção. Talvez mais tarde ele contará à sua esposa sobre o cara e sua pequena anotação. Talvez sua esposa o convencerá a chamar a polícia.
Earl olha seu braço. As letras surgem da pele, um pouco lacrimejosas. Elas correm desde a pulseira do relógio de Earl até seu cotovelo. Earl pisca ao ver a mensagem e lê de novo. Diz, em cuidadosas letras maiúsculas, EU ESTUPREI E MATEI SUA ESPOSA.

7

Hoje é seu aniversário, então eu te trouxe um presentinho. Eu deveria ter trazido uma cerveja, mas quem sabe onde acabaria?
No lugar disto, eu te trouxe um sino. Acho que tive que empenhar seu relógio para comprá-lo, mas pra que diabos você precisa de um relógio?
Você deve estar se perguntando, Por que um sino? Na verdade, tento adivinhar se você não se faz esta pergunta toda vez que encontra o sino no seu bolso. Muitas daquelas letras agora. Muitas pra você procurar cada vez que quer uma resposta pra qualquer perguntinha.
É uma piada, de verdade. Uma piada de cotidiano. Mas pense deste jeito: eu não estou rindo de você, estou rindo com você.
Eu gosto de pensar que toda vez que você tira o sino de seu bolso pensa, Por que eu tenho este sino? Uma pequena parte de você, um pedacinho do seu cérebro zoado, vai se lembrar e rir, como eu estou rindo agora.
Além disso, você sabe a resposta. É algo que você aprendeu antes. Então se você pensar nisto, você saberá.
De volta aos velhos dias, as pessoas tinham a obsessão do medo de serem enterradas vivas. Lembra-se agora? A ciência médica não era bem a que temos hoje, não era incomum as pessoas subitamente acordarem num caixote. Então os ricos tinham em seus caixões tubos de respiração. Tubinhos que percorriam toda a lama até o solo pra que se alguém acordasse, quando supostamente não era pra acordar, não iria morrer por falta de oxigênio. Agora, eles devem ter testado isto e perceberam que você poderia gritar até a rouquidão pelo tubo, mas o tubo era muito estreito para ser barulhento. Não era o suficiente para chamar atenção, no fim das contas. Então uma corda foi posta no tubo e amarrada num sininho preso à lápide. Se um morto voltasse à vida, tudo o que ele tinha que fazer era tocar o sininho até alguém vir e descavá-lo.
Estou rindo agora, imaginando você num ônibus ou talvez numa lanchonete, vasculhando seu bolso e encontrando seu sininho e se perguntando de onde viera, por que o tem. Talvez você nunca o tocará.
Feliz aniversário, meu chapa.
Eu não sei quem pensou na solução para nossos problemas mútuos, então eu não nem sei a quem congratular você ou eu. Um pouco de mudança no estilo de vida, aceite, mas uma elegante solução.
Procure a resposta em você.
Soa como algo saído de uma carta de tarô. Não sei quando você teve a idéias, mas eu tiro meu chapéu. Não que você saiba de que diabos estou falando. Mas, honestamente, uma verdadeira tempestade cerebral. Apesar de tudo, todo mundo precisa de espelhos para lembrar quem é. Você não é diferente.

8

A VOZ MECÂNICA PAUSA, e começa a repetir. Diz, "São 8 da manhã. Esta é uma chamada de cortesia." Earl abre os olhos e recoloca o fone no gancho. O telefone é parafusado a uma cabeceira de compensado barato que passa pela parte detrás da cama, contorna o canto do quarto e termina no minibar. A TV ainda está ligada, tiras coloridas dividem a tela. Earl deita-se e surpreende-se, mais velho, bronzeado, o cabelo saltando de sua cabeça como raios solares. O espelho no teto está partido, a prata se ofuscando em rugas. Earl continua a se olhar, atônito pelo que vê. Está totalmente vestido, mas as roupas são velhas, puída em alguns pontos.
Earl sente a marca familiar do seu relógio em seu pulso esquerdo, mas não está lá. Ele observa seu braço pelo espelho. Está sem pêlos e a pele mudou para um bronzeado uniforme, como se ele nunca tivesse usado um relógio. A pele possui a mesma coloração exceto por uma sólida seta negra na parte de dentro do pulso de Earl, apontando para manga de sua camisa. Ele observa a seta por um momento. Talvez ele não tente mais esfregá-la. Ele ergue a manga.
A seta aponta para uma frase tatuado ao longo da parte interna do braço de Earl. Earl lê a frase uma, talvez duas vezes. Outra seta no começo da frase, aponta para mais acima no braço de Earl, desaparecendo sob a manga levantada. Ele desabotoa a camisa.
Olhando para seu peito, ele pode visualizar as formas mas não consegue focalizá-las, então ele olha pelo espelho, acima dele.
A seta sobe o braço de Earl, atravessa o ombro, e desce pelo seu tronco, terminando na gravura do rosto de um homem que ocupada a maior parte de seu peito. O rosto é de um homem grande, calvo, com bigode e costeleta. É um rosto peculiar, mas como nos retratos falados policiais, tem alguma coisa de irreal.
O resto de seu tronco está coberto por palavras, frases, pedaços de informação, e instruções, todas escritas de trás para frente em Earl, na ordem certa ao espelho.
Earl senta-se, abotoa a camisa, e vai até a mesa. Ele pega caneta e um pedaço de papel da gaveta, senta, e começa a escrever.

9

Eu não sei onde você estará quando ler isto. Nem sei se você vai se incomodar de ler isto. Acho que você não precisa.
É uma vergonha, mesmo, que você e eu nunca nos encontraremos. Mas, como a música diz, "Quando você ler este recado, já terei partido."
Estamos tão perto agora. É o que parece. Tantas peças para juntar, soletrar. Acho que é só uma questão de tempo para você o encontrar.
Quem sabe o que fizemos pra chegar aqui? Deve ser uma história e tanto, se pelo menos você pudesse lembrar de alguma coisa. Acho que seja melhor que você não possa.
Acabei de pensar numa coisa. Talvez você a ache útil.
Todos estão esperando pelo fim, mas e se ele já passou por nós? E se a última brincadeira do Dia do Julgamento já veio e foi e nós nem nos ligamos? Apocalipse se aproxima em quietude; os escolhidos são alçados ao Paraíso, e o resto de nós, os que falharam no teste, seguem o caminho, esquecidos. Já morto, excursionando por aí após os deuses já terem parado de marcar os pontos, permanecendo otimista sobre o futuro.
Se essa for a verdade, então não importa o que você faça. Não há expectativas. Se você não o encontrar, não vai importar, porque nada importa. E se você o encontrar, pode matá-lo sem se preocupar com as conseqüências. Porque não há conseqüências.
É sobre isto que estou pensando agora, nesta quartinho em frangalhos. Quadros emoldurados de navios na parede. Eu não sei, obviamente, mas se tivesse que palpitar, diria que estivemos em algum lugar litorâneo. Se você está imaginando porque seu braço esquerdo está cinco vezes mais queimado que o direito, nem sei o que te dizer. Acho que estivemos dirigindo um bocado. E, não, eu não sei o que aconteceu com seu relógio.
E todos estas chaves: Não faço idéia. Não reconheço nenhuma. Chaves de carro e de casas e chavinhas de cadeados. Onde estivemos metidos?
Imagino se ele se sentirá idiota quem você o encontrar. Capturado pelo homem dez-minutos. Assassinado por um vegetal.
Vou embora daqui a pouco. Vou largar a caneta, fechar meus olhos, e daí você pode ler isto se quiser.
Só quero que saiba que estou orgulhoso de você. Nada que importa deixou de ser dito. Nada preciso deixou de ser feito.

10

OS OLHOS DE EARL ESTÃO BEM ABERTOS, olhando pela janela do carro. Olhos sorridentes. Sorrindo através da janela para a multidão reunida pela rua. O corpo vagarosamente se esvaziando pela calçada caindo no bueiro.
Um cara de família, rosto pra baixo, olhos abertos. Careca. Na morte, como nos retratos falados policias, os rostos tendem a serem os mesmos. Este é definitivamente alguém em particular. Mas na verdade, poderia ser qualquer um.
Earl permanece a sorrir para o corpo conforme o carro se distancia do meio-fio. O carro? Quem vai saber? Talvez um viatura da polícia. Talvez só um táxi.
Conforme o carro é engolido no tráfego, os olhos de Earl continuam a brilhar na noite, observando o corpo desaparecendo no círculo de pedestres aflitos. Ele ri para si mesmo enquanto o carro continua a aumentar a distância entre ele e a platéia cada vez maior.
O sorriso de Earl diminui um pouco. Algo lhe ocorreu. Ele começa a apalpar os bolsos, desdenhosamente no começo, como um homem procurando suas chaves, depois um pouco mais desesperado. Talvez seu progresso seja impedido pelo par de algemas. Ele começa a esvaziar os bolsos deixando o conteúdo ao lado, no banco. Algum dinheiro. Um molho de chaves. Pedaços de papel.
Um objeto metálico e redondo rola de seu bolso pelo banco de vinil. Earl está frenético agora. Ele bate na divisória de plástico entre ele e o motorista, implorando ao homem uma caneta. Talvez o motorista do táxi não fale muito bem o inglês. Talvez o policial não tem o hábito de falar com os suspeitos. De qualquer forma, a divisória entre o homem na frente e o homem atrás permanece fechada. A caneta não apareceu.
O carro passa por um túnel, e Earl pisca para seu reflexo no espelho retrovisor. Está calmo. O motorista faz outra curva, e o objeto de metal desliza, com o resto das coisas, até a perna de Earl, fazendo um barulhinho. Ele pega o objeto para dar uma olhada, está curioso. É um sininho. Um sininho de metal. Inscrito nela está seu nome e uma lista de datas. Ele reconhece a primeira: o ano no qual nasceu. Mas a segunda data não significa nada pra ele. Nada mesmo.
Conforme ele gira o sino em suas mãos, percebe o espaço vazio em seu pulso onde seu relógio costumava ficar. No lugar tem uma pequena seta, apontando para seu braço. Earl olha pra seta, e começa a arregaçar a manga da camisa.

11

"Você se atrasaria até para seu próprio funeral", ela diria. Lembra? Quanto mais eu penso sobre isso, mais banal parece. Que tipo de idiota, afinal, está com pressa de ver o fim de sua própria história?
E como eu poderia saber se eu estaria atrasado, oras? Eu não tenho mais relógio. Eu não sei o que nós fizemos com ele.
E pra que diabos você precisa de um relógio? É uma antiguidade. Peso-morto enrolado em seu pulso. Símbolo do você de antigamente. O você que acreditava em tempo.
Não. Rasgue aquilo. A sua descrença no tempo não é maior do que a descrença do tempo em relação a você. E quem precisa dele? Quem quer ser um daqueles tolos a acreditar na certeza de um futuro, na segurança de que um momento vem depois do outro nos quais eles sentiram alguma coisa poderosa? Vivendo no momento seguinte, no qual eles não sentem nada. Acreditando na mentira que o tempo vai curar todas as feridas - que é apenas um modo legal de dizer que o tempo nos mata.
Mas você é diferente. Você é mais completo. Tempo significa três coisas para a maioria das pessoas, mas pra você, pra nós, apenas uma. Uma singularidade. Um momento. Este momento. Como se você fosse o centro do relógio, o eixo em que giram os ponteiros. O tempo se desloca por você, mas nunca te desloca. Ele perdeu a habilidade de te afetar. O que é que eles dizem? Que o tempo é um ladrão? Mas não pra você. Feche seus olhos e você pode começar tudo de novo. Conjure a emoção propícia, fresco como rosas.
O tempo é um absurdo. Uma abstração. A única coisa que importa é este momento. Este momento um milhão de vezes repetidas. Você tem que acreditar em mim. Se este momento for repetido o suficiente, se você continuar tentando - e você precisa continuar tentando - você acabará seguindo para o próximo item no seu registro.