quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Estrada Desgraçada

1 - Carnificina

O detetive Bugsy foi o último homem a chegar na cena. Ele é um velho calejado de 40 anos. O que viu fez o toucinho de porco do seu café da manha se contorcer nas tripas. Aquele gosto amargo subiu do estômago para a garganta estragando ainda mais o seu hálito. O dia começou muito frio.

- Alguém conseguiu a identificação?

- Estamos trabalhando nisso.

- E o que vocês têm até agora?

- Nada.

- Nada?

- Sem digitais. As pontas dos desdos foram cortadas.

"Vamos remover o corpo." Berrou alguém da Homicídios. "Tirem essas merdas daqui, vamos limpar a área."
Bugsy apalpou o bolso do sobretudo bege procurando seus cigarros, só conseguiu umas notas fiscais de lanchonete amassadas com algumas anotações indecifraveis, moedas, clipes de papel, cartões de visita com mais rabiscos. E sua estúpida moeda da sorte. Algum necrófilo, ou qualquer porra dessas, tirava as últimas fotografias da carcaça sem cabeça espalhada por aquele terreno baldio. Bugsy não se interessou pelo corpo e nem pelo possível nome ou ocupação que tenha tido, antes de ser etraçalhado e decapitado e abandonado numa estrada rural cheia de milharais secos. Sequer pensou se haveriam possíveis testemunhas e o que estariam fazendo de errado naquele fim de mundo alêm de presenciar um assassinato. Ele ficou observando o jornalista com aquela sua cara de rato salivando sobre o corpo com sua câmera. Os abutres comem os restos.
Ninguém percebeu. Com certeza o Zé-roela que se entupia de rosquinhas com café descafeinado dentro da viatura não percebeu. Qualquer série policial de quinta diz que o criminoso sempre acaba voltando para a cena do crime. E o cara estava lá, não é?. Sempre esteve. Não saiu do lugar nem por um segundo. Todo mundo o ignorou. Até Bugsy o ignorou, ele estava ficando velho, o queixo balofo e queimado pelo vento frio dsepencando sobre o peito. Esse foi o seu erro - ficar velho.

2 - O Espantalho

Rusty dirigia à 120 km/h pela poeira da estrada e teve que parar para dar uma mijada. O sol a pino fervia o solo enquanto os répteis procuravam uma sombra debaixo de uma pedra ou qualquer coisa. Ainda ventava mais nem sombra do frio cortante da manha. Ele olhava o horizonte entre as montanhas desertas e sentiu sede. Voltou para pegar uma cerveja na caixa de esopor dentro do carro e deu de cara com um estranho. Estranho mesmo. Um homem magrelo, seco, de barba comprida e crespa, com um chapéu preto enterrado na altura dos olhos amarelos.

- Me dá uma carona, cara. - Disse o estranho.

- Puta que pariu! - Exclamou Rusty. E perguntou depois de recobrar o fôlego - De onde você veio? -

- Eu vim pelo milharal.

Os dois seguiram pela estrada em direção a cidade. Rusty observava o cara, a pele sulcada como solo árido, vestido como um pastor protestante. Não havia qualquer vestígio de vida naquele corpo esturricado pelo sol, de lábios e pálpebras rachadas, e olhos amarelos. Ofereceu uma cerveja a ele e tentou respirar fundo e esquecer o fedor de bosta velha e morte que emanava do outro. O estranho matou a cerveja como se fosse morrer e pegou outra garrafa, e abriu com os dentes podres.
"Distrito Industrial 5 Km"

3 - Depois da ressaca

O detetive Bugsy estava em seu escritório, tentando não ser um bosta e não conseguindo, sentindo tédio e pensando em qual ponto da sua vida ele pegou o ônibus errado, quando o telefone tocou irritantemente sobre sua escrivaninha.
Ele deu uma espiada pelas persiana a noite quente da cidade. O lento ventilador de teto não desfazia a morrinha estagnada de tabaco e álcool e solidão daquela sala. O couro rasgado das poltronas. O aluguel atrasado. Ele resolveu atender, podia ser alguma grana. Ou não.

- Preciso te ver agora. - Disse a voz cheia de estática.

- Eu tenho um preço. - Respondeu lacônico.

- Vá para a saída norte da cidade e pegue a estrada rural até a encruzilhada próxima à propriedade Usher. Me espere lá.

- Como vou saber se vale a pena?

- Olhe pela fresta da sua porta.

Um envelope pardo foi empurrado para dentro do escritório.
- Mas que porra!.. - e soltou o gancho do telefone. Bugsy correu até sua porta e abriu de sopetão. Nada. Nem sequer o som de passos no corredor. Bugsy voltou à sua escrivaninha.

- Quem é você?

Só o sinal do telefone sem linha. Ele se deixou cair na cadeira com o envelope na mão, puxou uma garrafa de whisky de baixo da mesa e botou meia dose num copo empoeirado e outra fora. O liquido escorreu até o cinzeiro abarrotado de pontas de cigarros amassados. Dentro do envelope tinha uma nota de cem.

4 - Caos e além do caos

"Bem Vindos ao Festival anual de imitadores de Elvis Presley do Bolina´s! Façam suas inscriçoes no balcão!"
O barulho das risadas, o estalo das bolas de bilhar, o tilintar das garrafas e a música country produziam um efeito parecido com heroína na mente de Rusty. Todo ano ele dirige milhas pela estrada deserta até essa velha espelunca no meio do nada, só para homenagear seu herói pessoal, o pai que ele não teve, o deus de sua religião; o Rei. Enquanto ele bebia sua tequila as strippers desfilavam pra lá e pra cá com as próteses de segunda mão expostas. Mas ele não conseguia se livrar do fedor do homem da carona, e isso fodeu sua noite.

- Mais uma tequila.

"Are you looking for trouble? You came to right place!"
A porta do Bolina´s se abriu e um homem gordo entrou. Seu sobretudo vertia água até seus sapatos. Rusty viu quando ele descobriu a careca no alto da cabeça e pôs seu chapéu no cabide. Ele parecia um tira ou um vendedor de seguros exceto pela barba de dois dias. Rusty terminou sua tequila e se aproximou do balcão:

- Chegou o cobrador.

A velha stripper analisou bem a figura do gordo. Não o conhecia. E ela já havia conhecido muitos homens, mas esse não era ninguém para ela.

- Whisky, por favor! - Pediu o gordo sentando ao balcão. - Quer um cigarro? - Ele ofereceu à Rusty que meteu a mão no maço de Marlboro.

- Você é daqui?

- Não. E você?

- Também não.

Eles ficaram se medindo, ombro à ombro. Logo desistiram e voltaram a suas bebidas.
A musica alta do bar abafava os arredores num raio de um quilômetro. Ainda estava quente lá dentro mas a enchurrada trouxe de volta o vento frio cortante. E o vento traria a neblina que caminhava sobre os lagos como um ser ancestral e lançava os motoristas desfiladeiro abaixo.

5 - Morte no nevoeiro

Os dois homens caminhavam bêbados sob a tormenta. Não conseguiam chegar até o carro. O vento carregava a água para todos os lados, inclusive para cima. O Chevy Impala estava estacionado sob uma árvore que sacudia os galhos secos e jogava folhas lodosas como tapas na boca dos dois. A água suja turvava a visão. Eles tropeçavam em si mesmo e nas raízes podres. Alguém deve ter colocado alguma coisa na bebida. É isso, drogaram a bebida deles. Estavam balbuciando coisas desconexas enquanto a saliva escorria pelo queixo com água da chuva. Um taco de baseball esplodiu acima da nuca de Bugsy que afundou de cara na lama e isso foi a última coisa que Rusty viu.
O Penhasco - através da janela de um carro escuro desafiando a chuva numa estradinha de terra. O vento furioso jogava a água sobre as pedras lá embaixo.
O carro parou rente ao precipício e algo que poderia ser um grande cachorro morto foi lançado pela janela do carona. Dois vultos escuros atrás das chamas de charutos obscenamente grandes riram quando o objeto quicou nas pedras afiadas antes de se chocar com a massa de água. Rusty não conseguia se concentrar para manter os olhos abertos por muito tempo e apagou.
Abriu os olhos outra vez e distinguiu duas nucas protegidas por golas de couro preto em vultos nos bancos da frente do carro desconhecido. Seus sentidos estavam anestesiados. Sangue quente vertia de um corte no supercílio. Sua boca estava amarrada com silver-tape. Ele tentou se mexer mas sentiu como se tivesse sido pisoteado por búfalos. As maõs amarradas nas costas.
A medida que o carro avançava, a lua jogava sua luz azulada sobre o banco traseiro onde havia algo indefinido que Rusty levou muito tempo para identificar como a cabeça decepada do detetive Bugsy.

6 - A Encruzilhada

"There´s a killer on the road."

- E o que vamos fazer com esse daqui?

- Não fomos pagos para isso.

- Ele estava com o detetive, talvez saiba de alguma coisa.

- Pode ser, hehe.

"Fim da linha pra você, seu merda!" Os dois homens de sobretudo desceram do carro e arrancaram Rusty do banco traseiro. Ele agora estava lúcido o bastante para ficar desesperado. Os capangas pareciam dois corvos sob suas capas pretas fumando seus charutos. Eles o arremessaram em direção a uma árvore de tronco irregular, galhos secos e raízes podres. Um dos corvos apontou sua arma para a testa de Rusty, um tiro á queima-roupa espalharia seu cérebro aos quatro cantos da estrada, o outro corvo que mexia no porta-malas do carro apareceu com uma corda e um sorriso no rosto, baixou a arma do seu comparsa e eles amarraram Rusty no tronco da árvore. "Vamos brincar com ele!"
Rusty estsva sentado contra o tronco, com os braços amarrados para trás e a corda na boca. Um dos caras tirou uma navalha do bolso, abriu e se agachou perto da árvore. Traçava cortes muito finos na cara e no peito de Rusty que grunhia e mordia a corda. A encruzilhada levava a uma estrada cercada por milharais secos com um espantalho. Rusty se contorcia e grunhia alto ali no meio do nada, os dois corvos riam. O outro fincou uma faca na sua coxa direita, bem fundo até sentir a ponta cutucando o osso. A noite estava cheia de grunhidos e uivos, lobos sedentos de sangue e corvos sob a carniça. O espantalho abriu os olhos amarelos no meio da plantação. A chuva caía gelada sobre eles mas o sangue quente encharcava a roupa de Rusty, mesmo assim ele viu alguma coisa.

- Você tá sentindo isso?

- O que?

- Parece que estamos sendo observados.

- Ah, cala a boca, você tá paranóico.

- Sério, parece que estão nos vigiando.

- Acaba logo com isso e vamos dar o fora daqui.

O capanga pressionou sua faca contra o pescoço de Rusty, era só dar um puxão horizontal. "Ei, aquele espantalho não estava ali!"

- Porra! Me deixa terminar o serviço. Você tem cheirado demais.

Agora o espantalho estava fincado a poucos metros deles. Os dois homens estavam tensos e suavam mais gelado que a chuva. O sangue gotejava de Rusty e formava uma poça no meio de suas pernas. O som que o coração fazia bombeando sangue para a têmpora e a respiração pesada dos homens os impediam de ouvir os barulhos do matagal. Os passos largos entre as folhas murchas.

- Caralho, aquele espantalho tá olhando pra mim!"

- Droga cara!, acaba logo com essas porra!

O corvo ofegava e babava encarando aqueles malditos olhos amarelos. O outro tomou a faca de sua mão e se ajoelhou junto a Rusty. O espantalho desceu do puleiro e correu uns dez metros, os corações socavam dentro dos peitos com cada passo seu. Então o espantalho voou sobre ele e abocanhou seu pescoço com seus dentes podres. Arrancou e mastigou um belo bife. O sangue do corvo espirrava de suas veias. Ele não conseguiu gritar porque suas cordas vocais foram dilaceradas. O outro tentou correr para o carro mas foi jogado no chão pelo espantalho que pulou com as quatro patas em suas costas e começou a rasgar sua pele por baixo do sobretudo e devorar sua carne, desgrudando de seus ossos. Ele também não gritou, estava em choque e não resistiu muito quando a carne de suas costas foi separada das costelas. O espantalho cuspiu na terra encharcada os pedaços sangrentos dos corvos. Olhou para Rusty com aqueles mortos olhos amarelos e avançou em cima dele. Mordeu as cordas que prendian seus braços ao tronco. Rusty sentiu o toque do seus dedos finos e secos, e aquele fedor familiar do homem da carona. Logo ele estava livre e se arrastou para o carro no meio da estrada. Se sentou ao volante e mesmo encharcado e sangrando, provavelmente delirando de febre, sentiu-se melhor ali dentro, com a cabeça do detetive Bugsy. Olhou mais uma vez no milharal e viu o espantalho seco distante fincado no meio da plantação. Ele estava longe demais para se saber se seus olhos estavam abertos. A cabeça de Rusty pendeu sobre o volante e ele desabou.

7 - Cães do Inferno

Rusty dirigia à 120 km/h pela poeira da estrada. Já havia amanhecido. Só os cactus e os crâneos permaneciam de baixo do sol escaldante. Seus cortes já pararam de sangrar, mas sua perna doía pra caralho. Eles levaram seu carro e ele ia dar um jeito nisso. Ele tinha uma coisa que eles queriam. Viu uma placa que anunciava - Comida & Combustível - e seguiu pela trilha que levava a uma lanchonete. Os olhos mortos de Bugsy no banco traseiro pareciam olhar direto nos dele pelo retrovisor. Bugsy parecia rir dele com aquela sua cara inchada e sua careca estúpida. Rusty freiou e a cabeça rolou pelo chão do carro.
Abasteceu aquela merda de carro e entrou na lanchonete. Sentou num tamborete e pediu pão e ovo frito, com uma chicara de café. Os caras que pagaram pelo serviço iriam caça-lo como cães, foi pura sorte ele ter escapado. Olhava pelo vidro um calango tentar atravessar a estrada escaldante e ser atropelado por uma Scania. E tentou imaginar o que iria fazer com a cabeça do detetive Bugsy.

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