quarta-feira, 18 de abril de 2012

Fugitivo

A rodovia no escuro. De vez em quando a luz de faróis atravesa a estrada iluminando o asfalto molhado. Quando anoitece tudo fica mudo, exceto quando pneus rasgam o silêncio e derrapam na pista. E eu observo dessa janela.
Grandes caminhões-containers com seus olofotes. Produzem um som agudo até desaparecem no contorno da serra. E as luzes vermelhas sumirem no meio dos pinheiros. As vezes demora muito até passar um carro. Então os únicos barulhos são das corujas e morcegos no alto das árvores. E do meu intestino fodido.
A cabana não tem luz elétrica, nem água. A chama do meu cigarro é o único ponto iluminado na escuridão. E esse é o último. O isqueiro não pode servir como fonte de calor, é arriscado deixar vazar luz pelas frestas da janela, por menor que seja. Um vagalume nessa penumbra pode ser confundido com um ovni.
Sobrou uma lata de salsicha. Saio tateando o piso de tacos de madeira, procurando meu canivete. Desisto depois de perceber que é inútil. Depois de três dias o cardápio à base de salsicha enlatada é intragavel. É uma questão de tempo pra me pegarem aqui. A cadeia já não parece tão miserável assim. Se eu puder cagar com algum conforto, tudo bem.
Uma freada brusca interrompe meu torpor. Faróis vermelhos passam zunindo nas paredes, e com eles o barulho das rádio-patrulhas. É isso aí, chegou a hora. Engatilho a colt, me levanto rente à parede e meto o pé nas tábuas de madeira da janela. Mando bala berrando palavrões e arranco cascas das árvores ao redor da cabana. Por um momento me dou conta de que os carros da polícia já vão longe e as sirenes somem na escuridão da noite.
E eu descarrego a arma no meio do nada.
Otário.
A baforada de ar quente do motor de um volvo de quatro eixos bate na minha cara. Volto pra dentro da cabana, agora sem nenhuma intenção de me manter invisível. Me jogo na escuridão, com a luz da lua vazando pela janela quebrada queimando meu rosto. E a neblina da noite se arrastando pelo chão. Quem se importa?
Abro e fecho o isqueiro só pra ouvir seu "clique". Observo a forma perfeita da sua chama com a base azulada. Pouso a mão esquerda aberta sobre o fogo até não aguentar. Um leve cheiro de hambúrguer toma conta da cabana. Então noto essa lata vazia com a tampa afiada. Onde dói menos, no pulso ou na garganta?
Começo a esfregar a lata afiada no pulso esquerdo em movimentos horizontais e percebo que isso vai levar tempo. O sangue espirra primeiro bem fino e morno, e vai tomando consistência a medida que o corte se aprofunda. Mas vai levar tempo.
Droga. Três dia de salsicha enlatada. Sem dormir. Talvez a polícia nem esteja atrás de mim. Foi tudo um delírio, não foi? Eu imaginei tudo isso. Um batedor de carteira com ilusões de grandeza. Eu sabia que não era minha cara naquele cartaz, porquê eu me meti nisso?
Estou cansado e sangrando muito. De repente minhas tripas se contorcem violentamente. Droga, não posso ser encontrado morto cheio de merda nas calças. Tenho que morrer com o pouco de dignidade que me resta. Paro de cortar e me levanto, meio tonto e sangrando muito. Saio da cabana me escorando numa árvore. Me agaicho no meio do mato com a calça no tornozelo. Ah, evacuo três dia de salchicha enlatada.

- Parado! Mão na cabeça!

Merda.
A lanterna dos tiras ofuscam meu olhos. Bem na hora que a merda sai com força do meu cu e respinha nos meus calcanhares. O jato de bosta elameia o mato. Que desgraça.

- Você tá preso, cagão!

Eles me algemam enquanto solto os últimos gases agudos. Erguem minhas calças e me arrastam até o camburão e me fazem senter sobre meu cu todo melado.

Estrada de Ferro

Ele calçou a bota de ferro como todas as manhãs. Barbeou aquela cara cansada em frente ao espelho. Deu um gole no café morno e aguado da noite anterior e cuspiu o resto pelo ralo da pia. Abotoou a gola do macacão, apagou as luzes e saiu
A fechadura da porta estalou sozinha dentro do apartamento escuro. A sombra de seus pés deu a volta e desapareceu pelo feixe de luz na fresta da porta. Seus passos pesados descendo os degraus de madeira da velha pensão ecoaram no silêncio.
A estrada de ferro cruza o caminho para a fabrica. As pessoas se agarram a qualquer coisa para fugir do vazio de suas vidas ordinárias. Elas fazem projetos e inventam problemas, planejam o futuro e se ocupam de coisas importantes para não encarar a falta de sentido de tudo isso. Criam valores para investir, propósitos para suas existências. Só para disfarçar a verdade - o que ninguém consegue enxergar. Mas não sobrou nada pra ele se agarrar. Ele é testemunha do seu próprio fracasso.
Enquanto ele esperava o trem, observava as outras pessoas. De um lado para outro, como formigas. Atrasadas. Preocupadas. Tentando não enxergar o óbvio. Ignorando o que só ele vê. Se uma tempestade destruisse tudo e acabasse com toda essa presunção? As pessoas se cercam de ilusão para negar a falta de controle sobre suas próprias vidas. Será que alguma coisa realmente vale a pena?
O trem se aproximava. Ele escutava o barulho do atrito das rodas no trilho. Outras pessoas recuaram um passo, ele não. O primeiro vagão passou sem reduzir a velocidade. O impacto do deslocamento de ar sobre sou corpo enfim o empurrou para trás. Quando o segundo vagão se aproximou ele se jogou sobre essa massa diabólica de ferro e velocidade. Newton pode explicar o resto.
Seu corpo de carne e osso contra toneladas de ferro á 100 km/h.
O primeiro impacto arremessou seu tronco sobre os trilhos e lavou a cara das pessoas com seu sangue. As rodas como guilhotinas sobre suas pernas e seu ventre. O trem continuou correndo sem piedade. E o relógio no seu pulso continuou correndo sem piedade. Atropelando tudo a sua frente.
Ele permaneceu consciente em seus últimos minutos. Tentando levantar o corpo mutilado. Apalpou seu baixo ventre e não havia nada. Só as tripas vertendo pra fora. Suas pernas se arrastaram por uns dez metros a frente, presas nas rodas. Como aquele fiapo de carne nos dentes depois do almoço. As pessoas se amontoavam sobre seus pedaços, porque é mais real que no cinema, e com baixo orçamento. Ele tentou falar mas o sangue grosso inundava sua boca. E os celulares transmitiam em tempo real sua agonia. Seu olhar de espanto e confusão eternizado. Ninguém ali podia fazer nada além de divulgar sua morte na internet. E então todo mundo seria testemunha do seu fracasso.

Procurado

Cheguei ontem na cidade. Minha perna ainda doía pra caralho. Trouxe a Magnum intocada no case da guitarra. Me hospedei nesse hotel barato para passar a noite. Dei um nome falso e paguei com o cartão de crédito de outra pessoa. É foda sair fugido da sua cidade natal. Pior ainda se a cidade tiver menos de dez mil habitantes que reconheceriam sua cara estampada num cartaz na parede da delegacia de polícia - com a palavra PROCURADO escrita em grandes letras vermelhas.
Até agora não consgui achar um lugar adequado para a encomenda. Essa porra está fedendo e vai começar a chamar a atenção. Merda, isso é um pesadelo. Quando foi que a minha vida se transformou nisso? Melhor nem pensar.
Ligo a t.v. para aumentar o meu ódio.
Bosta! Devia ter pedido um quarto com frigobar. Isso resolveria o problema pelo menos por enquanto. Desço até a recepção para comprar mais gelo. A atendente até que é gostozinha e tá me dando chance. Talvez eu foda com ela pra aliviar a tensão. Talvez eu foda.

- Ei moço! Talvez seja melhor você mudar de quarto. Pegar um com frigobar. Que cê acha?

- Tá bom assim. - Eu disse.

- Jura? Você não ia precisar de todo esse gelo né... além do mais...

Parei em frente a garota com o pacote de gelo debaixo do braço.

- Além do mais existem coisas melhores do que assistir televisão.

Fodemos no meu quarto sem frigobar.
Ela tinha os peitos gordos, cheios de estrias perto dos mamilos. Isso estava oculto pelo decote quando eu os fitava descaradamente na recepção. Você sabe, a propaganda é a alma do negócio. E ela tinha a boceta apertada e uma bunda bem redonda e durinha. Bem que valeu a pena. Ela só podia ficar quinze minutos fora da recepção por isso fomos direto ao assunto. Quando gozamos ela começou a se vestir e me perguntou quanto tempo eu ficaria ali. Eu não sabia, podia levar semanas ou amanhã mesmo estaria fora. Disse que a avisaria quando soubesse e ela me mostrou seus belos dentes amarelos.

- O que é aquilo? - Ela perguntou apontando o pacote embrulhado em jornal.

- Um animal morto.

- Argh! Porque você carrega isso? O que vai fazer com ele?

- Não é da sua conta.

- Essa coisa tá fedendo. Você vai empalhar ou coisa assim? Era seu bichinho de estimação, não era?

- Vou empalhar.

- Tadinho. Vou arrumar um esopor pra você. Depois eu volto.

Vestiu seu Jeans rasgado nos joelhos e a blusinha recortada no decote para exibir melhor seu produto. Desceu a escada e eu fiquei deitado nu sobre o lençol molhado e encardido. Não sobrou nenhuma cerveja e tive que destampar a garrafa de Jack Daniel´s com as chaves. O whisky desceu queimando a garganta e o estômago, depois amorteceu minha lingua e a minha mente. Foi fácil engolir metade da garrafa. Quando a garota voltou com a caixa, agarrei seus cabelos e puxei pra dentro do quarto. Ela olhou para meu rosto: olhos vidrados. Olhou para o criado mudo: Meia garrafa de whisky. Tentou abrir a porta atrás de si rapidamente mas eu já havia bloqueado sua passagem com o braço. Ela me olhou chorosa sabendo o que tinha que fazer. Baixou a cabeça em direção ao meu pau e começou a chupar entre gemidos e soluços.

Nota Suicida

O sangue que escorre pelo braço, goteja sobre o teclado. É escuro e espesso. Fede. Uma poça se formou entre as letras "a", "s" e "d". E na tela do computador a página em branco rindo da minha cara... Meus dedos ezitam sobre as teclas. Os olhos correm os titúlos de outros mortos na estante. Tudo está embassado.
Tenho pouco tempo, então vamos logo com essa porra. Ele escorre vermelho escarlate pelas minhas mãos.
Difícil resumir todos os anos de tédio e tristeza dessa vida patética. Todas as lágrimas pela cerveja derramada ou pela boceta não comida. As gargalhadas de desespero e sorrisos amarelos, para pessoas que não me importam em situações em que estive pouco me fodendo... dias e horas e segundos que esperei em vão por qualquer merda, trabalhei por porra nenhuma e fiquei puto sem qualquer razão. Tudo isso para acabar aqui. Assim.
Tenho que terminar logo com isso. Minha cabeça pende sobre a escrivaninha e sinto nos pés o sangue quente vertendo das minhas mãos. Reúno as últimas forças para escrever enquanto meus nove dedos jazem inertes sobre o assoalho ensanguentado. Tudo o que posso deixar é uma sentença:
Foda-se.