Ele calçou a bota de ferro como todas as manhãs. Barbeou aquela cara cansada em frente ao espelho. Deu um gole no café morno e aguado da noite anterior e cuspiu o resto pelo ralo da pia. Abotoou a gola do macacão, apagou as luzes e saiu
A fechadura da porta estalou sozinha dentro do apartamento escuro. A sombra de seus pés deu a volta e desapareceu pelo feixe de luz na fresta da porta. Seus passos pesados descendo os degraus de madeira da velha pensão ecoaram no silêncio.
A estrada de ferro cruza o caminho para a fabrica. As pessoas se agarram a qualquer coisa para fugir do vazio de suas vidas ordinárias. Elas fazem projetos e inventam problemas, planejam o futuro e se ocupam de coisas importantes para não encarar a falta de sentido de tudo isso. Criam valores para investir, propósitos para suas existências. Só para disfarçar a verdade - o que ninguém consegue enxergar. Mas não sobrou nada pra ele se agarrar. Ele é testemunha do seu próprio fracasso.
Enquanto ele esperava o trem, observava as outras pessoas. De um lado para outro, como formigas. Atrasadas. Preocupadas. Tentando não enxergar o óbvio. Ignorando o que só ele vê. Se uma tempestade destruisse tudo e acabasse com toda essa presunção? As pessoas se cercam de ilusão para negar a falta de controle sobre suas próprias vidas. Será que alguma coisa realmente vale a pena?
O trem se aproximava. Ele escutava o barulho do atrito das rodas no trilho. Outras pessoas recuaram um passo, ele não. O primeiro vagão passou sem reduzir a velocidade. O impacto do deslocamento de ar sobre sou corpo enfim o empurrou para trás. Quando o segundo vagão se aproximou ele se jogou sobre essa massa diabólica de ferro e velocidade. Newton pode explicar o resto.
Seu corpo de carne e osso contra toneladas de ferro á 100 km/h.
O primeiro impacto arremessou seu tronco sobre os trilhos e lavou a cara das pessoas com seu sangue. As rodas como guilhotinas sobre suas pernas e seu ventre. O trem continuou correndo sem piedade. E o relógio no seu pulso continuou correndo sem piedade. Atropelando tudo a sua frente.
Ele permaneceu consciente em seus últimos minutos. Tentando levantar o corpo mutilado. Apalpou seu baixo ventre e não havia nada. Só as tripas vertendo pra fora. Suas pernas se arrastaram por uns dez metros a frente, presas nas rodas. Como aquele fiapo de carne nos dentes depois do almoço. As pessoas se amontoavam sobre seus pedaços, porque é mais real que no cinema, e com baixo orçamento. Ele tentou falar mas o sangue grosso inundava sua boca. E os celulares transmitiam em tempo real sua agonia. Seu olhar de espanto e confusão eternizado. Ninguém ali podia fazer nada além de divulgar sua morte na internet. E então todo mundo seria testemunha do seu fracasso.
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