A rodovia no escuro. De vez em quando a luz de faróis atravesa a estrada iluminando o asfalto molhado. Quando anoitece tudo fica mudo, exceto quando pneus rasgam o silêncio e derrapam na pista. E eu observo dessa janela.
Grandes caminhões-containers com seus olofotes. Produzem um som agudo até desaparecem no contorno da serra. E as luzes vermelhas sumirem no meio dos pinheiros. As vezes demora muito até passar um carro. Então os únicos barulhos são das corujas e morcegos no alto das árvores. E do meu intestino fodido.
A cabana não tem luz elétrica, nem água. A chama do meu cigarro é o único ponto iluminado na escuridão. E esse é o último. O isqueiro não pode servir como fonte de calor, é arriscado deixar vazar luz pelas frestas da janela, por menor que seja. Um vagalume nessa penumbra pode ser confundido com um ovni.
Sobrou uma lata de salsicha. Saio tateando o piso de tacos de madeira, procurando meu canivete. Desisto depois de perceber que é inútil. Depois de três dias o cardápio à base de salsicha enlatada é intragavel. É uma questão de tempo pra me pegarem aqui. A cadeia já não parece tão miserável assim. Se eu puder cagar com algum conforto, tudo bem.
Uma freada brusca interrompe meu torpor. Faróis vermelhos passam zunindo nas paredes, e com eles o barulho das rádio-patrulhas. É isso aí, chegou a hora. Engatilho a colt, me levanto rente à parede e meto o pé nas tábuas de madeira da janela. Mando bala berrando palavrões e arranco cascas das árvores ao redor da cabana. Por um momento me dou conta de que os carros da polícia já vão longe e as sirenes somem na escuridão da noite.
E eu descarrego a arma no meio do nada.
Otário.
A baforada de ar quente do motor de um volvo de quatro eixos bate na minha cara. Volto pra dentro da cabana, agora sem nenhuma intenção de me manter invisível. Me jogo na escuridão, com a luz da lua vazando pela janela quebrada queimando meu rosto. E a neblina da noite se arrastando pelo chão. Quem se importa?
Abro e fecho o isqueiro só pra ouvir seu "clique". Observo a forma perfeita da sua chama com a base azulada. Pouso a mão esquerda aberta sobre o fogo até não aguentar. Um leve cheiro de hambúrguer toma conta da cabana. Então noto essa lata vazia com a tampa afiada. Onde dói menos, no pulso ou na garganta?
Começo a esfregar a lata afiada no pulso esquerdo em movimentos horizontais e percebo que isso vai levar tempo. O sangue espirra primeiro bem fino e morno, e vai tomando consistência a medida que o corte se aprofunda. Mas vai levar tempo.
Droga. Três dia de salsicha enlatada. Sem dormir. Talvez a polícia nem esteja atrás de mim. Foi tudo um delírio, não foi? Eu imaginei tudo isso. Um batedor de carteira com ilusões de grandeza. Eu sabia que não era minha cara naquele cartaz, porquê eu me meti nisso?
Estou cansado e sangrando muito. De repente minhas tripas se contorcem violentamente. Droga, não posso ser encontrado morto cheio de merda nas calças. Tenho que morrer com o pouco de dignidade que me resta. Paro de cortar e me levanto, meio tonto e sangrando muito. Saio da cabana me escorando numa árvore. Me agaicho no meio do mato com a calça no tornozelo. Ah, evacuo três dia de salchicha enlatada.
- Parado! Mão na cabeça!
Merda.
A lanterna dos tiras ofuscam meu olhos. Bem na hora que a merda sai com força do meu cu e respinha nos meus calcanhares. O jato de bosta elameia o mato. Que desgraça.
- Você tá preso, cagão!
Eles me algemam enquanto solto os últimos gases agudos. Erguem minhas calças e me arrastam até o camburão e me fazem senter sobre meu cu todo melado.
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