Você acorda e percebe. Está bem alí naquele beco escuro. Jogado no meio dos sacos de lixo e garrafas quebradas. Perdeu um sapato; do pé direito. Você abre os olhos e tenta se levantar. A cabeça dói muito. Você sente o sangue seco na testa e o calombo acima da nuca. Porra, como dói.
Uma única lâmpada mortiça pende sobre a porta dos fundos do pub de onde você foi chutado. Parece que ainda estão tocando led Zeppelin mas você não tem certeza. O som abafado atravessa a porta de ferro e chega distorcido nos seus tímpanos. De vez em quando uma risada alta e alguns palavrões sobressaem no burburinho. E a guitarra do Jimmy Page.
Tá bom, você pensa. E agora?
E agora você está fodido. Você foi enganado e espancado. Você foi roubado e largado na rua como um cachorro morimbundo que ninguém quer sacrificar. Por que você enfia a mão no bolso da calça e não encontra a carteira. Tateia entre os sacos pretos cheio de macarrão azedo e bitas de cigarro.
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- OE! Você é retardado ou o quê?
- Não, espera aí, não foi isso que eu quis dizer...
- Ei, ei, esse cara perdeu a noção! Você sabe onde você tá, filho da puta? Você sabe com quem tá falando, seu monte de bosta!!!
- ... o senhor entendeu errado... espera, não foi minha intenção... não...
- Você tá me chamando de burro, seu viadinho? Seu filho de uma prostituta arrombada. Ei, quanto esse cara ta devendo?...
- Dois whiskeys e duas Bud.
- Você está fodido, seu escroto!!!
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Você entra no bar e pede uma budweiser. Apoia os cotovelos de costas no balcão. Dá uma olhada no movimento. As poucas mulheres estão acompanhadas e metade dos seus acompanhantes estão bêbados. O tédio está estampado na cara delas e só o que elas podem fazer é beber como eles. Numa noite dessas não é tão difícil dar uma rapidinha nos fundos do bar ou ganhar uma boquete no banheiro masculino.
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Então você se levanta do chão. Sacode os restos de alface e espaguete da calça. Pisoteia os cacos de vidros com o pé direito, com a meia rasgada nos dedos. Sua cabeça gira 360º. E você tenta fixar na lâmpada mortiça que pende sobre a porta dos fundos do pub;
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Você segue a mulher até o bar como um tubarão atraído pelo cheiro de sangue. Ela te olha fingindo que não vê você e continua andando com um risinho safado na cara. Você está fisgado. Aproveite que você ainda tem uns trocados na carteira e encharque essa vadia de alcoól até ela não poder resistir e trepar com você no primeiro quartinho pago por hora.
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Ele usa sua cabeça para abrir a porta e te arremessam pela escadinha de ferro. Você escuta os últimos insultos entre gargalhadas e a música alta, ele volta para o bar e o barulho fica abafado e distante. De repente o beco cai na penumbra entre os ecos de orgia.
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Ela esta sozinha na mesa. Bebendo vodka. Um maço de Lucky Strike sobre a mesa. A filha da puta é gata. Você observa em slow motion o movimento das suas mãos levando um cigarro à boca. O clique do seu isqueiro abafa o barulho, a chama carburando as folhas de tabaco, a expanção dos seus pulmões inalando a fumaça. E ela solta com os lábios semi-abertos. Aquela boca grossa borrada de vermelho, manchando o filtro do cigarro.
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- Você tá sozinha?
- Agora não.
- OE, um whiskey e outra cerveja. E uma dose pra moça!
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Você sente o cheiro de loção de barba vagabunda do leão de chácara. O peso daquela mão gorda e suada nos seus ombros. Ele baforeja a sentença no seu ouvido, encostando o beiço inchado cheio de baba em você. Ela sumiu da mesa com seu Lucky Strike e nem deixou fumaça. Depois disso a escuridão... Flashs do neon vermelho e rostos distorcidos. A porta dos fundos se aproxima bem rápido, sem você dar um passo. Algum descabaçado mete a mão na sua bunda. E então BLAM!!!
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Enquanto você se arrasta pela parede e a música continua alta, sua cabeça dói e os ratos do beco levam seu sapato, enquanto você resmunga em frente a única janela não tapada com madeira, lá dentro o leão de chácara, o barman e a vadia, dividem entre si o dinheiro da sua carteira.