"Para sua segurança esta mensagem está sendo gravada.
Tecle 2 para ouvir novamente a mensagem.
3 para o número do protocolo.
4 para falar com um dos nossos atendentes.
5 para voltar ao menu principal.
Agradecemos à sua..."
Merda!
00:00 A.M.
O advogado está sentado no escuro. Uma cozinha minúscula no centro da cidade. O último gole de whisky no fundo da garrafa.
Sozinho no escuro, com as baratas roçando seus pés descalços sobre cascas de pão velho. O eterno clichê da torneira estalando as gotas no alumínio da pia. E meses de gordura acumulada sobre o fogão.
A luz que atravessa o vitrô reflete nas lentes dos óculos. Ele abre a geladeira outra vez; o recado que tinha deixado para si mesmo ainda está lá:
"Vá ao supermercado."
Merda. As sirenes que passam berrando na rua e mudam de tom e velocidade, distorcidas pelo deslocamento de ar. Os cachorros vagabundos uivando para algum mendigo ou assombração. Depois disso o silêncio.
Não silêncio de verdade, porra. Sempre vaza algum programa de t.v. ou uma briga. Nunca alguém cantando. Ou trepando.
01:00 A.M.
Ele vai ao banheiro e encara seus próprios olhos vidrados no espelho. Enfia os pulsos debaixo da água corrente. Esfrega a água gelada na cara e na nuca. Olha outra vez os olhos secos à sua frente. E desiste.
Então ele tenta outra vez o telefone. A mesma mensagem gravada. Ele já decorou todas. Da operadora de cartão de crédito, da operadora de telefonia, da central de atendimento do banco, do escritório do patrão, da casa da sua mulher.
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Os atendentes são adestrados para agir como secretárias eletrônicas. O principal requisito para você arrumar um emprego desses é: Não Pensar.
02:00 A.M.
Então ele vira na boca a jarra com café frio e amargo. Tinha esquecido que era de anteontem. Ele quer lavar aquele gosto escroto que ficou na língua mas está com pena de engolir o resto de whisky no fundo da garrafa. Ainda deve ser 1h da manhã e a insônia vai durar a noite inteira. Mas a garrafa não.
A televisão aberta transmite filmes velhos e dublados de quinta, ou canais de venda, ou pastores exorcizando o capeta. Nenhuma música. Ninguém trepando.
03:00 A.M.
O advogado tenta se lembrar de todas as mulheres que ele comeu em 57 anos. Foram 5, incluindo sua esposa. Nenhuma foda boa o suficiente para render uma punheta meia bomba para passar o tempo.
Ele também não consegue pensar em nenhuma fantasia pornô que tenha tido com qualquer secretariazinha ou estagiária do escritório. Isso o faz se questionar: que merda eu estava pensando esse tempo todo?..
Depoois de ter zerado sua conta no banco, ele não pôde pagar o aluguel dessa kitnet no centro da cidade. Não pôde pagar a hipotéca da casa da esposa e nem as prestações do carro.
04:00 A.M.
Eles está sentado no escuro com um pedaço de papel na mão. E está velho porque não consegue distinguir as letras borradas que formam várias listras. Mas ele não precisa mais ler aquela bosta. É só burocracia. Ele já ouviu essa mensagem da boca de uma secretariazinha do escritório do patrão;
"Neste momento seus serviços não são mais necessários. Ficamos gratos de saldar os seus encargos trabalhistas relativos à sua função. Obrigado por ter colaborado com o sucesso do nosso escritório."
Obrigado? Ele pensa. Como se tivesse feito um favor à eles.
05:00 A.M.
A noite fica azul escuro e ele tranca a porta do pequeno cômodo deixando a chave na porta. Desce a escada e enfia a mão no bolso para catar umas moedas para abastecer o carro até chegar em casa.
Depois de alguns quarteirões ele estaciona num belo sobrado com gramado aparado. Aciona o portão automático da garagem e entra. Sobe pela escada social até o segundo andar onde deixa cair as chaves sobre o aparador. Ele entra com cuidado no quarto ventilado. Chuta a maleta pra debaixo da cama e se enfia no meio do lençol de seda com seus sapatos engraxados.
A mulher acende o abajour:
- Agora, amor?
- Pois é, tive uma reunião com uns clientes. Tô quase fechando um contrato bem lucrativo pra gente.
- Você tá com bafo de bebida...
- Sabe como é, o chefe nos levou a um restaurante para puxar o saco dos clientes.
- Que bom, querido. Então eu posso mandar instalar aquela jacuzzi do catálogo?
- Você pode fazer o que quiser, meu bem.
Foi a última vez que ele trepou com a sua mulher.
Foi a última vez que ele trepou com uma mulher.
Foi a última vez que ele trepou.